Muitas coisas simplesmente não fazem sentido




Muitas coisas simplesmente não fazem sentido.

E nós não conseguimos abrir os olhos. Não enxergamos. Estamos mergulhados em um complexo sistema no qual todos os pontos estão interligados. Sempre fomos uma rede.

É complicado quando a rotina nos cega. A rotina, o normal, o esperado; tudo isso nos adormece para o que o mundo e a vida realmente são: o novo, a ebulição, o que se renova a cada dia. Nada agora está no mesmo lugar de ontem. Talvez, só as nossas mentes paradas, mas todo o resto mudou.

Todas as estruturas criadas pelos seres humanos, as grandes estruturas econômicas, sociais e políticas foram sendo absorvidas pela nossa apatia geral e se instalaram.

Fomos educados para temer. Tememos o novo, o criativo, o novo jeito de fazer as coisas. Tememos errar, tememos nos expor a críticas, tememos o outro, o mundo e... a nós mesmos. Com medo, não conseguimos olhar para o lado. Um verdadeiro cabresto.

Aprendemos muito cedo que viver é uma série de fases: nascer, crescer, reproduzir e morrer. Viver... nossa vida já foi pensada, planejada e decidida antes mesmo de agente existir. O mundo já estava “prontinho” para nos receber. Viver é muito difícil, especialmente quando se pensa. Pensar é penoso. Dói mesmo. Mas é também uma escolha... será? Acho que algumas pessoas já são desde pequenas mais curiosas que outras. Essa curiosidade, vontade de descobrir o mundo, como as coisas funcionam, já foi tão aplacado pela minha “boa educação”, mas não morre. Vem ebulindo em mim desde pequena. Fui uma criança muito traquina, como dizia minha mãe. Tudo queria ver, tocar, mexer... entender... 



Hoje eu tenho ponderado um pouco mais sobre a minha inquietude. Minha traquinagem ao longo da vida já me fez enxergar e perceber coisas que doeram muito. E penso qual a ignorância que eu devo sustentar para tentar ser feliz.

Mas, não desisto de minha ebulição.Enxergar é muito importante porque realmente o mundo não pára. A zorra tá girando... Algumas poucas pessoas têm muito poder nesse mundo. Poucos decidem e definem a vida de muitos. E aí? Cadê a escolha? Agente não vê porque a manobra consiste exatamente na não percepção do manobrado. E por isso funciona. Alguns poucos, com muito dinheiro e poder, definem qual o lugar de cada um nessa teia. Todos nós. A vida já vem pronta, meu amigo. Você vai crescer, vai para escola (ser educado? Amansado?), vai saber tudo de física, matemática, biologia... tudo para passar no vestibular, vai sem saber nada que seja realmente útil e importante para a vida, aí ingressa na universidade (cheio de ideais, achando que você pode fazer a diferença), se gradua e cai no mundo do trabalho. Essa é a pior parte- vai virar escravo do sistema. Vai comprar um carro, mas precisa pagar seguro, emplacamento, IPVA, combustível... enfim, passa a trabalhar para sustentar o carro. Compra a sua casa, traduzindo: condomínio, IPTU, água, luz, telefone, e mais umas mil despesas... ganha mais uma obrigação, mais uma justificativa para que você não pare. Você não pode parar. Ficar desempregado é uma vergonha. Seu incompetente!! Todos os seus gastos... e sua casa? E seu carro? E seu filho!! (aqui, são desnecessários os comentários). Você vira escravo. Passa a trabalhar para sustentar tudo o que você conquistou. Conquistou?!, parece que você nunca vai, de fato, conquistar nada, porque nada é seu definitivamente.Se você parar... perde tudo. Você pensa que tem as coisas, mas percebe que são as coisas que têm você. Ditam sua vida, ditam o que você deve fazer.

E essa roda é ótima! Para sustentar toda a rede. Todos estamos preocupados demais em encontrar o nosso “lugar ao sol”. É uma luta pela própria sobrevivência. Nós continuamos os animais do tempo das cavernas. Só mudamos o jeito de fazer as coisas. Mas, essencialmente, é o mesmo conflito, o mesmo problema: Sobrevivência.

E aqui vem: quem necessita, se submete. Sim, se submete! Trabalho nas condições que meu patrão quiser, não nas condições a que tenho direito. Faço o que me mandarem fazer (sou um bom empregado), trabalho sem hora extra, aceito o assédio do superior, nem penso mais... eu nem penso mais para não pirar, porque é muita pressão!! E a minha casa? E meu carro? E meu filho? Eu tenho que sustentar... eu tenho que suportar... eu tenho que...

Tudo, menos viver. E os dias vão passando... e você fez direitinho como aprendeu na escola: Você nasceu, cresceu, reproduziu e ... morreu. Sem ter ao menos enxergado a vida (porque pedir para viver a vida já é pedir demais). E agora? Já passou a sua chance...

Mas as pessoas vão ter orgulho de você. Você deixou bens, você construiu uma família, você foi o cara bem-sucedido.Você foi O cara. E se você não parou para pensar, realmente acreditou nisso. Morreu feliz.

Doce e amarga inquietação essa minha...


Milena de Almeida Santos foi aluna do Curso de Ciências Contábeis da UEFS no período de 2000 a 2005, tendo atuado também como Diretora Financeira da Consulte Jr.- Empresa Júnior de Consultoria da UEFS nos últimos dois anos de sua formação.

8 comentários:

1 de março de 2010 08:41 Ana Paula Duarte disse...

São inquietações de Milena, inquietações minhas e de mais alguns.Para isso há de se ter certa astúcia, ou sensibilidade.
Tememos o diferente pq este no sistema social atual é tido como excluído, sendo que na verdade todos somos uns diferentes dos outros.
Texto mais que pertinente!

1 de março de 2010 16:27 Stela Bião disse...

Doce e amarga inquietação essa nossa.
Parabéns pelo texto!

1 de março de 2010 17:03 anubis disse...

Essa inquietação de tão real, para mim é somente amarga...
Mas, adorei o texto!

1 de março de 2010 21:51 gleison disse...

Raul Seixas com certeza sente-se contemplado com a simplicidade explicitante de nossa alienação ou auto-alienação.

2 de março de 2010 08:22 Milena disse...

Cortaram trechos do texto, trocaram termos, alteraram o estilo.Eu, a autora, não gostei.Não se altera um texto sem consentimento do autor.Isso se chama censura.Deixo aqui o meu registro do que considero uma falta de respeito.
Milena Almeida

2 de março de 2010 13:18 Transa, revista disse...

Cara Milena,

Pedimos desculpas pelo ocorrido. Todas as revisões são feitas a fim de melhorar o texto sem mudar ou tirar seu estilo (geralmente são de ordem gramatical).

Porém, como não foi aprovado, acabamos de postar o texto original, sem alterações.

Como recebemos muitos textos e o blog deve ser atualizado diariamente, às vezes não dá tempo entrar em contato com o autor antes da publicação do seu texto (já que obedecemos um calendário de postagens).

Atenciosamente,
Equipe Transa.

2 de março de 2010 14:35 Milena disse...

Equipe Transa,

Uma vez corrigida a falha e postado o texto com as alterações que efetivamente consenti,recupero o sentimento de respeito pela revista.
Agora que as razões para o incidente foram explicadas,compreendo a boa intenção por detrás do fato.Agradeço pela atenção e desejo a todos uma boa leitura.
Milena Almeida

3 de março de 2010 13:58 M. Correia disse...

Nada faz sentido até encontrar-mos um.

Postar um comentário