Mostrando postagens com marcador O Bom Jogador. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O Bom Jogador. Mostrar todas as postagens

E agora, Paulão? Ou Para uma compreensão do tempo no futebol

|Por Ederval Fernandes|

Já ouvi inúmeras vezes que o cão é o melhor amigo do homem. Não estou certo sobre a veracidade dessa sentença, e, no mais, como tenho alergia a pêlos variados, incluindo aí, obviamente, o do cão, estou inclinado a achar que o melhor amigo do homem é mesmo o livro, e, sobretudo, os livros de Hemingway, o melhor escritor jamais nascido em qualquer via láctea.

Fama e anonimato

Fama |Por Ederval Fernandes|

 

Estou lendo uma grata coletânea de reportagens jornalísticas. Comprei-a motivado pelo título pretensioso - O Grande Livro do Jornalismo – e, naturalmente, pela lista de autores responsáveis pelos artigos, entrevistas, resenhas e matérias que compõem o volume (editado e organizado pelo jornalista inglês Jon E. Lewis, para quem se interessar). Lá estão escritores do gabarito de Charles Dickens, Mark Twain, John dos Passos, George Orwell, entre outros mestres do passado e do presente. Estou lendo-o com o cuidado daqueles que procuram decifrar os mistérios das palavras – alguns poucos sabem, muitos ignoram, mas meu anseio mais romântico é me tornar um jornalista. Mas não cabe aqui falar de sonhos. Volto ao livro.

Li na página 267 um excelente editorial publicado no The Times de 1º de julho de 1967. O título, Quem Tortura uma Borboleta na Roda? – “um floreio literário”, nas palavras de E. Lewis.  W. Rees-Mogg, autor do texto, escreve linhas antológicas acerca da fama e seus desdobramentos negativos. O texto tem como mote a prisão arbitrária de Mick Jagger no verão de 67, acusado de porte drogas (para ser mais exato, pílulas contendo sulfato de anfetamina e hipoclorito de metil-anfetamina). Na altura, toda a Inglaterra achou a punição demasiada.

Que Rei sou eu!



É preciso reconhecer em Ricardo Teixeira ao menos uma habilidade: sua imensa capacidade de sair ileso dos reveses mais drásticos. Após a derrocada da “Era Dunga” (idealizada e bancada por ele, não nos esqueçamos jamais), cri ingenuamente que o mandatário-mor da CBF também não seria poupado da sanha popular. Engano meu. Com exceção de meia dúzia de pessoas que pede há anos seu imediato afastamento da Confederação (alguns mais exaltados, a sua morte), ninguém ousou citar Teixeira como pivô do fracasso canarinho. Nem mesmo a Globo, hostilizada simbolicamente na figura do medíocre repórter Alex Escobar, quando este ouviu de Dunga palavrões em cadeia mundial, numa fatídica coletiva de imprensa após a vitória brasileira contra os costa-marfinenses.

O estrategista e o antiprofessor



Essa Copa do Mundo tem se caracterizado, até o momento, pela rigidez tática das seleções. Mais do que os craques, mais do que as vuvuzelas, é o trabalho em equipe assustadoramente organizado e obediente o que mais se vê na África do Sul. E por que tudo não é por acaso, na Copa da tática, da estratégia, o mundo elogia o futebol alemão. E o futebol alemão faz por merecer, claro. É a racionalidade do jogo elevado a patamar de arte. São os apolíneos do futebol.

Num silogismo simples, se a Copa da África é a Copa da tática, logo os protagonistas não seriam os craques (escassos, aliás) e sim os técnicos, ou melhor, os “estrategistas”, como a crônica brasileira está adorando chamá-los.

A minha surpresa no primeiro jogo do Brasil nesta Copa

                                                                                        Por Giliad de Souza


A primeira partida da seleção brasileira nessa copa sul-africana conseguiu me surpreender. Não fiquei surpreso pelo resultado magro (Brasil 2x1 Coréia do Norte), pelo pouco saldo de gol do Brasil, pela parca capacidade criativa e de converter a posse de bola em ataques efetivos, por mais uma vez ter o setor defensivo como o mais expressivo. Enfim, a grande mídia não conseguiu me ludibriar, fazendo-me crer que o primeiro jogo do Brasil na copa seria distinto do que tem sido na era Dunga, nem algo repleto de lances fenomenais, com lances memoráveis ou até mesmo um futebol vistoso, similar ao da Alemanha contra a Austrália. O que me surpreendeu foi a afirmação de um profissional midiático do futebol, o Sr. Paulo Roberto Falcão, quando ainda tínhamos ao próximo de 5 mim de partida, a saber, “parece que temos um jogo entre um time profissional [Brasil] e um amador [Coréia do Norte]”. Sei que a ampla maioria dos profissionais midiáticos do futebol são uma porcaria, mas esta afirmação superou qualquer bom-senso mínimo, deixando-me realmente surpreso. Vou explicar os elementos que compõe o motivo de minha surpresa.
                                                                   

Os Idiotas da Objetividade



Muitos comentaristas e torcedores têm apontado semelhanças entre os selecionados de 94 e o de 2010. A expressão “futebol pragmático” é a mais usada nestas pretensas análises. Mas o que mais chama atenção é como o conceito de pragmatismo vem sendo vinculado ao que se entende por “futebol de resultado” e, sobretudo, por “futebol campeão”.

Os defensores do pragmatismo no futebol brasileiro sempre apontam a “eficiência” de 94 à inconsistência do brilhante selecionado de 82, e dizem que, por pior que seja o jogo jogado, preferem o título. Não vêem no futebol nada além da verdade factual de vinte e dois homens chutando uma bola e quando por acaso esta cruza a meta, no marcador, acresce mais um numeral. São estes os “idiotas da objetividade”.

Um quadro desolador



O Jornal Nacional (Rede Globo) exibe, até o começo da Copa, o perfil de cada um dos 23 jogadores convocados por Dunga. Se não me falha a memória, esta é a primeira vez que o jornal faz esse tipo de especial. Não é por acaso. Vejamos.

Pouco antes de começar a exibição dos perfis, a mesma Rede Globo havia feito no Globo Esporte uma enquete que concernia no seguinte: o transeunte adivinhar os jogadores que o repórter trazia na mão, em fotos grandes e vistosas. O brasileiro olhava a foto de um Michel Bastos, um Josué, um Ramires, um Felipe Melo e emudecia. O que não se calava, equivocava-se: “Hermanes, Neymar...” Creio que a reportagem do Jornal Nacional tenha achado um bom “ponto de pauta” neste desconhecimento generalizado do quadro canarinho. “Afinal o Brasil precisa saber quem o representa na Copa”. Este deve ter sido o argumento cabal do editor-chefe, que os seus subalternos devem ter achado de uma sagacidade e tanto. 

Contra a coerência

| Por Ederval Fernandes |


 
A suposta “coerência” de Dunga pode ter um dimensão mais profunda. Por não ter habilidade para montar duas ou mais alternativas para a Seleção, ele resolveu apostar todas as fichas no esquema que lhe rendeu dois títulos e um primeiro lugar nas eliminatórias, mesmo ciente (não apenas ele, mas todo o mundo) que este selecionado não sabe criar uma escassa jogada de gol que não seja de contra-ataque.

A Seleção dos canalhas



Tenho a convicção de que a lista de convocados para a Copa do Mundo é um assunto de ordem Nacional e, como tal, deveria ser escolhida diante de uma comoção popular, um plebiscito, algo assim democrático e gigantesco que arrebatasse toda nação e fosse assunto imperioso no mais modesto boteco, na mais esquemática mesa de jantar brasileira.

Apenas caberia ao treinador da Seleção a tarefa de ordenar esse panteão de craques de modo a torná-lo um time entrosado, escolher os que eventualmente começariam jogando e os que esquentariam o banco, ensaiar umas jogadas, instruir alguns posicionamentos, e outras coisas de praxe. Nada mais.

O Santos e os seus meninos

Já repeti isso diversas vezes. Se a escolha do time do coração fosse racional, torceria para o Touro do Sertão de 63, o Vasco da Gama dos primórdios, o Corinthians da democracia oitentista e finalmente o Santos de todos os tempos, porque há uma elegância inconteste nesta camisa alva desfilando na Vila Famosa às quartas e domingos, destroçando seus adversários.


Uma vez um sensato torcedor santista me veio com esta pérola: “É fácil torcer pro Santos, ele mistura uma tradição campeã inquestionável com requintes contemporâneos de competitividade. Não é um quadro estagnado”. Estávamos num bar, naquele ano de 2005 o Flamengo estava no olho do furacão de uma crise que já durava uma década (tenho uma teoria jamais escrita que a crise se deflagrou como uma feitiçaria – um filho malvado - na barrigada de Renato Gaúcho no final do Carioca de 95, ano do centenário rubro-negro) e o Santos, por sua vez, havia sido campeão brasileiro na temporada anterior. Consternado, assinei em baixo. “É isso mesmo”.


Apadrinhado por El Rey, Ronaldinho não precisa da imprensa


O jornalismo esportivo brasileiro, sobretudo o que vive de futebol, com exceção de meia dúzia de gênios (quase todos falecidos), é a prova cabal de que há mais imbecis no Brasil do que nos permite crê nossa vã ideologia.

Como um ritual de autoflagelo, percorro os canais abertos da televisão brasileira na altura do meio-dia com meu suculento almoço fumegando no prato sobre a almofada do sofá. De um programa a outro, vejo e me contorço com as asneiras que são destiladas em cadeia nacional por asnos como Ulisses Costa, Doutor Osmar, Tino Marcos e Escobar. Os que podem, pelo auxílio luxuoso do dinheiro, pagar uma tevê a cabo, terão um ou outro privilégio (como Juca Kfouri ou Paulo Vinícius Coelho, vá lá o Trajano), mas nada que justifique a mensalidade salgada  - só a centena de jogos justificam. 

Robinho sob a égide do prazer




Sempre achei Robinho um jogador espetacular. O que lhe critico é o jeito como lida com a carreira e esta obsessão tola de provar aos outros e a si que pode ser o melhor do mundo. Até o mais abnegado por futebol sabe que a escolha do melhor jogador FIFA não é apenas técnica. É sobretudo política, marqueteira e subserviente à Champions League. Ou será que ninguém parou pra pensar por que todos os jogadores premiados até hoje atuaram em campos europeus? É evidente que os motivos deste prêmio vão muito além do trato com a bola.

Kaká, que tecnicamente não é lá tão melhor que Robinho, sabe como ninguém administrar sua carreira. Por isso (evidentemente não por isso) se mantêm há muito entre os melhores: joga em bons times, não se deixa levar pela primeira oferta milionária que lhe chega às mãos e, o mais importante, não é deslumbrado com a fama. Brinco com amigos que se trata de sua ética protestante. Ele sabe realmente lidar com o mundo dos negócios: exemplo disso foi sua ida para o neo-galático Real Madrid ao invés de se enveredar pelos petrodólares do Man City.