Fama e anonimato

Fama |Por Ederval Fernandes|

 

Estou lendo uma grata coletânea de reportagens jornalísticas. Comprei-a motivado pelo título pretensioso - O Grande Livro do Jornalismo – e, naturalmente, pela lista de autores responsáveis pelos artigos, entrevistas, resenhas e matérias que compõem o volume (editado e organizado pelo jornalista inglês Jon E. Lewis, para quem se interessar). Lá estão escritores do gabarito de Charles Dickens, Mark Twain, John dos Passos, George Orwell, entre outros mestres do passado e do presente. Estou lendo-o com o cuidado daqueles que procuram decifrar os mistérios das palavras – alguns poucos sabem, muitos ignoram, mas meu anseio mais romântico é me tornar um jornalista. Mas não cabe aqui falar de sonhos. Volto ao livro.

Li na página 267 um excelente editorial publicado no The Times de 1º de julho de 1967. O título, Quem Tortura uma Borboleta na Roda? – “um floreio literário”, nas palavras de E. Lewis.  W. Rees-Mogg, autor do texto, escreve linhas antológicas acerca da fama e seus desdobramentos negativos. O texto tem como mote a prisão arbitrária de Mick Jagger no verão de 67, acusado de porte drogas (para ser mais exato, pílulas contendo sulfato de anfetamina e hipoclorito de metil-anfetamina). Na altura, toda a Inglaterra achou a punição demasiada.

Após esmiuçar cada detalhe do fato, descrevendo os motivos injustos para tal condenação, o epílogo do editorial me parece irretocável dentro da sua obviedade. Cito-o. “Deveria ser uma particular qualidade da justiça britânica assegurar que o sr. Jagger fosse tratado exatamente como qualquer outro, nem melhor nem pior. Deve permanecer neste caso a suspeita de que o Sr. Jagger recebeu uma sentença mais severa do que se julgaria adequada para qualquer jovem simplesmente anônimo”.

Bom. Devidamente citado, faço portanto uma tortuosa referência ao Caso Neymar. Ou melhor, a sucessão de casos que o Neymar tem protagonizado em pouco menos de duas semanas.

Fui um entusiástico defensor de Neymar em todos os seus lençóis e em todas as supostas declarações que deu até o momento. Disse até que não considerava insulto algum uma pessoa se gabar de ser milionária. E, de certo modo, não acho que seja mesmo. E tratemos de diferenciar, neste caso, esta declaração daquela do goleiro santista que afirmou gastar o mesmo valor do salário do torcedor que lhe insultara apenas com a ração para seu cachorro. Percebam que “ração” e “cachorro” surgem na sentença de uma maneira feroz. Não vejo essa ferocidade na declaração de Neymar. Quer dizer, não nesta declaração particular do milionário.

Só que Neymar insultou o técnico e o capitão da sua equipe de uma maneira completamente desequilibrada. Isto, apenas, porque Dorival Jr. pedira que Marcel, seu colega de time, cobrasse o pênalti que ele, Neymar, havia sofrido. Até hoje não entendi o porque da reação intempestiva. Que ele seja vaidoso, presunçoso, prepotente, este é um problema exclusivamente dele. Em certa medida, quando esta sua prepotência é da mesma natureza daquela que faz seguir com destemor pra cima dos zagueiros cada vez mais que apanha deles e deles ouve as provocações mais hostis, que faz um mito desabar feito uma jaca mole (lembremos do pênalti convertido sobre Ceni) eu lhe aplaudo. Quando isto, como vimos, resulta num momento de tempestade, eu me ressinto, porque sei que, assim como custou a Romário, isto poderá lhe prejudicar muito. Mas não posso fazer mais do que me ressentir. Explico-me.

Quem sou eu em espécie de guardião dos bons costumes e das heráldicas relações entre humanos para chegar diante da tevê e bradar “monstro!” como fez René Simões pelo ato de indisciplina já citado? Jogadores brigam em campo, xingam-se a torto e a direito, cospem uns aos outros, maculam suas santíssimas mães com os palavrões mais vis, mas apenas Neymar é um monstro, é um bandido, é um canalha, “é o jogador mais indisciplinado que eu já vi como profissional”, como disse René Simões. Que o seu ato de indisciplina seja devidamente punido dentro das proposições do seu clube, isto sim é o mais correto, porque seria assim se se tratasse de um anônimo. Por ele ser hoje o grande protagonista do futebol brasileiro, chegam os obtusos de plantão e querem abocanhar um pedaço da sua atenção midiática, e querem que ele sirva de exemplo. Exemplo por quê? Por que ele é um craque?

Estão criando sensacionalismo onde não há. Isto, obviamente, não é inédito. É, na verdade, secular. Estão se aproveitando da fama do garoto e querem, a qualquer custo, malhá-lo como a um Judas. "É preciso domá-lo!", como se se tratasse de uma fera. Não sei por que eu ainda me incomodo com estes idiotas. Vai ver porque a injustiça é sempre incômoda mesmo, por mais secular que seja.

1 comentários:

22 de setembro de 2010 14:02 Daniel Oliveira disse...

Eder, é preciso considerar que o sensacionalismo faz parte do jornalismo. Esse é o primeiro passo. Bom, em 90% dos casos, os sensacionalistas não apelam para o bom senso, isto é, a matéria exaltada na mídia não merece a exaltação a que lhe destinam (não merecem, que fique claro, não a partir da minha opinião, mas a partir de uma comparação óbvia e lúcida com outros fatos "piores" ou mais "complexos").

Mas, em alguns casos, esse sensacionalismo condiz com a notícia retratada. Meu caro, o caso de Neymar é sim inédito no Brasil. E é justamente por ele ser craque e famoso que tem satisfações a dar e posturas a manter (caso ele queira manter a fama de craque e de ícone e ídolo do brasil, naturalmente).

É claro que se Hermínio, o craque aqui do Fluminense de Feira, ficasse pirado e xingasse seu técnico, provavelmente só seria noticiado nos jornais locais e olhe lá, e certamente Hermínio é que teria seu contrato reicindido, pois não vale milhões de dólares.

Ou seja, o que você acha que não deveria acontecer é o que, na minha opinião, justamente DEVE acontecer e exatamente pelo motivo que provocou o acontecimento.

Para mim, antes dele ter sido prepotente, arrogante e indisciplinado, ele foi é muito BURRO mesmo, por deixar tudo isso acontecer, por não se controlar. Lembre-se de Pelé aos 18 anos e de tantos outros.

E é absurdo usar o argumento (não foi você que utilizou, mas outras pessoas) de que os tempos são outros, de que é preciso relevar porque a quantia de dinheiro que corrompeu a cabeça do jogador é maior, e que por isso suas atitudes foram mais perdoáveis. Se fosse assim, deveríamos ser mais "legais" com a Suzanne Richthofen, por exemplo, já que na época dela a educação dos pais para com os filhos era mais liberal, não era rígida como no início do século retrasado, e por isso deu margem às coisas que ela fez.

Postar um comentário