Um quadro desolador



O Jornal Nacional (Rede Globo) exibe, até o começo da Copa, o perfil de cada um dos 23 jogadores convocados por Dunga. Se não me falha a memória, esta é a primeira vez que o jornal faz esse tipo de especial. Não é por acaso. Vejamos.

Pouco antes de começar a exibição dos perfis, a mesma Rede Globo havia feito no Globo Esporte uma enquete que concernia no seguinte: o transeunte adivinhar os jogadores que o repórter trazia na mão, em fotos grandes e vistosas. O brasileiro olhava a foto de um Michel Bastos, um Josué, um Ramires, um Felipe Melo e emudecia. O que não se calava, equivocava-se: “Hermanes, Neymar...” Creio que a reportagem do Jornal Nacional tenha achado um bom “ponto de pauta” neste desconhecimento generalizado do quadro canarinho. “Afinal o Brasil precisa saber quem o representa na Copa”. Este deve ter sido o argumento cabal do editor-chefe, que os seus subalternos devem ter achado de uma sagacidade e tanto. 




Eu, por outra, desloco o eixo deste suposto argumento do editor e interrogo: este selecionado estrangeiro sabe que representa uma pátria de chuteiras? Lembra-se que aqui o futebol dilacera a concepção de esporte e atinge uma dimensão fatal para a vida do ser humano?

Em 2006 fiquei sabendo que muitos jogadores foram para boates após a eliminação na Copa. Fiquei chocado. Pra mim, a eliminação de uma Copa se equivale, em dramaticidade, a um pé amputado. Soou-me de uma insensibilidade fatal com a nação essa ida a boate, esse pileque. Só pude creditar isso ao fato de todos os jogadores morarem a anos na Europa e por conta disso os sentimentos patrícios tenham definhado com o frio do Velho Mundo.

Houve um tempo em que o jogador brasileiro tomava uma média com o torcedor nas padarias; compartilhava a mesma fila para jogar no bicho; comprava, na mesma loja, a camisa que vestiria no samba.

Mas hoje temos esse quadro desolador: enquanto o torcedor, dilacerado, rói um pedaço de rapadura em frente a tevê e constata que jamais verá um Kaká andando pelas ruas, muito menos dividindo com ele uma média na padaria, o jogador brasileiro a anos na Europa anda se perguntando se o Brasil existe mesmo ou se o país não passa de uma música do Jorge Benjor.

3 comentários:

1 de junho de 2010 10:49 Lorena disse...

sambaby, sambaby, nossos camaradinhas da bola de hoje em dia também incorporaram a cultura do 'ganhe, gaste, gaste-se e, nesse embalo, torne-se obsoleto'. o futebol brasileiro, lamentavelmente, não tem escapado ileso à tônica que condiciona as nossas 'paixões'.

1 de junho de 2010 14:51 Paulo Moraes disse...

Tem certas coisas que eu não entendo. Inicialmente uma revolta com a escalação de Dunga. Ele fez isso durante três anos e meio, mas aquela vitória contra a Argentina por 3x1, bestializou todos e todas.
A outra é esse clamor por Neymar, Ganço e os moleques do Santos. Dunga fez o certo, pois já chega o chefe da trupe Santista (Robinho) ter sido convocado. Com certeza eles apenas iam querer ficar dançando, como fez o Chefe, no pré-olimpico de 2004 e na Copa de 2006. E o Santos começa a descer a ladeira das vaidades.
Vamos Argentina ser Tri!

2 de junho de 2010 06:19 DSL disse...

Para quem torçe para a Argenina, Paulão, você está até sendo coerente em não quer Neymar e, sobretudo, Ganso venstindo o uniforme canarinho.

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