A culpa é de quem não se move

Por Rafael Cardoso   





Recentemente tive conhecimento do mais novo aumento na passagem do transporte público urbano de Feira de Santana – R$2,15. Cada vez nos aproximamos mais do preço cobrado na capital baiana – Salvador – que já é um exemplo de exploração e irresponsabilidade para com o cidadão que necessita do serviço de transporte público.

O que mais me intriga em todos esses aumentos ocorridos – ano após ano – é a mera justificativa, camuflada nas juras de melhores serviços, de que é necessário haver os aumentos estipulados. Nos é conhecido casos de cidades, não muito distantes de nós e que, com realidades e necessidades maiores que as nossas, têm uma maior respeitabilidade quanto ao preço e aos direitos oferecidos em relação ao transporte urbano.

Para quem está acompanhando meu escrito, deve estar imaginando que eu queira ser mais um a criticar os abusivos aumentos dessas tarifas. Porém, digo-lhes que se enganam os que tomaram esse viés. Meu intento é criticar, justamente, a passividade da população que insistentemente não se move contra a limitação de seus direitos e apenas faz as velhas “reinvidicações de bate-papo” – uso esse termo para designar o que já conhecemos quanto à mania do brasileiro de reclamar à pessoa errada. Ao invés de ir à causa do problema, simplesmente reclama nas conversas do dia-a-dia e sem ter muito compromisso em obter uma mudança no quadro. 

Não é de conhecimento apenas dos historiadores que, o poder de mudança está nas mãos da população, dos cidadãos, já que são eles quem movimentam toda a economia. Mas, o que falta, então, para que tenhamos o poder de decidir o que nos cabe? Qual a explicação para a conformidade da população feirense – e baiana – ante esses abusos excessivos? 
 Nós sabemos como ninguém que o interesse que nos move é puramente personalista e tem como base o que já diz o famoso ditado: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. É querer buscar somente o melhor para si, enquanto os outros que se virem atrás do deles. Isso é o primeiro passo para o fim de uma consciência de cidadania. O pensar em si volta negativamente para o próprio indivíduo, sendo que nem ele faz as melhorias e nem se une para que tais mudanças ocorram.


Um exemplo, pitoresco por sinal em meu meio social são as vans que fazem a linha “Terra Dura/Feira VII/Genipapo”. Observei por tempos como as pessoas se comportam ante a lotação dos carros – que além de ser um desrespeito para com o cidadão, é um delito e uma ameaça a integridade física da população. Muito se reclama dentro dos carros, pouco se faz – continuam, mesmo que reclamem, enchendo os carros consciente ou inconscientemente -, e permanecem os abusos. O que aconteceria se esses usuários deixassem de andar nas vans cheias e passassem a somente utilizar carros que estejam com assentos disponíveis? Os próprios funcionários que “tangem” os passageiros e os acomoda em meio ao aperto e ao desrespeito teriam de moldar-se para que possam obter o mesmo lucro desejado, mas baseados nas reivindicações silenciosas e ativas. Em suma, a realidade seria de: assentos e vans para todos, com uma “respeitabilidade” forçada, mas, presente. 

Agora tomando por base minha hipótese citada acima, o que aconteceria se a mesma atitude fosse tomada em relação aos ônibus urbanos? E se o feirense se negasse a ser explorado e, de maneira pacífica e muito mais eficaz, cortasse o sustento e impedisse que a mercadoria das empresas de ônibus urbanos fosse consumida? Acredito que eles também teriam de se adaptar para continuar a incessante luta diária em busca do “sustento”, continuar a ter passageiros e, logicamente, a ter lucros.
    

O que quero realmente afirmar é: o poder está conosco mas não queremos usá-lo. Os que visam essas mudanças são taxados de “alienados”, “pseudo-socialistas”, etc., etc., etc. Dentro de um mundo de adjetivos, acabam tendo de sofrer pela decisão unânime da sociedade de viver sob o julgo dos que “mandam”. Sempre calados e acanhados ante os cobradores e fortes reivindicadores sem motivação, e sem vontade real alguma de mudança, dando margem somente ao agravamento da situação.





    

“O Brasil não tem cidadania. A classe média não quer direitos, quer privilégios e também, não os quer para o povo. Isso acaba com todo o ideal de cidadania”

Milton Santos.





Rafael Cardoso: Licenciando em História, pela UEFS, professor estagiário de história pelo município.


4 comentários:

25 de junho de 2010 13:01 Ana Paula Duarte disse...

Perfeita crítica a passividade dos passageiros de ônibus desta cidade.Como passageira que pega 5 conduções por dia, sei bem o que acontece nos terminais, nos pontos, dentro dos ônibus...É desrespeito por toda parte, tanto aos idosos, aos próprios passageiros, um verdadeiro assalto em quatro rodas...Eu podia narrar aqui diversas histórias, das mais cabulosas...Como no dia em que quase morri no UEFS via Sobradinho, quando o banco onde eu estava sentada soltou dos ferros que o prendiam e eu que tive que ser esperta o suficeinte para dar um pinote e praticamente voar...Ou quando na segunda-feira fui ao centro e vi estampado no bus o adesivo com o aumento da tarifa e vi gente sofrendo a vergonha de ter que descer do ônibus por não possuir os R$ 0,15 centavos de reajuste, já que foram pegos de surpresa. Todos os dias, já tarde da noite, ao voltar do meu estágio, sou obrigada a ficar uma hora (exatamente) no terminal a espera da condução, sempre reclamo, vou até a sala do fiscal do SMTT...Mas sempre faço isso sozinha, quando reclamo com os moradores do bairro, ficam todos concordando comigo, mas ninguém tem iniciativa para ir reclamar, até que chega o micro-ônibus e mil pessoas se apertam e se amassam para caber ali dentro (nem tanto exagero) e mais uma vez, só eu sou a revoltada reclamona do Jd. Cruzeiro...Mas continuarei a reclamar.
A situação dos ônibus na cidade piorou muito depois da eleição daquele prefeito que nem quero dizer o nome, e que me deve três meses de salário...A cidade está um caos e o que é mais revoltante é justamente essa passividade que só prejudica ainda mais o povo, e os que reclamam, revindicam( o que é um direito...) acabam visados como arruaceiros, encrenqueiros e outros adjetivos não muito legais.
Prefiro ter a consciência tranquila e reclamar mesmo do que ficar reduzida a aceitação de qualquer coisa, quando tenho direitos, pois pago meus impostos, sou uma cidadã, sei que merecemos ter um transporte público melhor e com um preço coerente a realidade da população feirense, portanto, temos que nos mobilizar, eles já sabem que só quem se organiza são os estudantes, os demais, só faz falar e depois acaba acatando como se não houvessem alternativas.

5 de julho de 2010 09:45 Deusdete disse...

" Já basta , já basta !!!
Chega de tanta discaração dessa explicita política hipócrita e arrogante .
O que quero é um pouco de paz . não quero chegar em casa e não ter o que comer por que o transporte público não me deixa nem os trocados do pão ."

8 de julho de 2010 09:13 Lidiany CS disse...

Eu praticamente tinha um AVC todos os dias quando levava duas horas pra chegar da UEFS a Conceição, falta de respeito de motoristas, cobradores, ficais e respeito próprio dos cidadãos que mendigam indignamente um lugar nos ônibus, seja ele na porta, janela, em cima do cobrador na cabeça dos outros, seja lá onde for.
Cansei de reclamar, assinar reivindicações ligar para o SMTT, cansei, simplesmente não dava mais, ou largava o ônibus ou a faculdade.
Hoje fazendo uma análise vejo que fui imensamente prejudicada, horas de estudo e descanso perdidas por causa da espera e correria dos ônibus.
Comprei uma moto graças a Deus, estou correndo perigo de vida, mas estou feliz! ;)
Nunca peguei vans até ser obrigada pela prefeitura no terminal Norte, acho que são inseguras e desconfortáveis, mas não havia opção.
Ah, sim e isso não vai mudar, os feirenses gostam disso: motoboy, lotação e vans, ônibus com gente caindo pela janela.... :P
Vcs ouviram falar do ônibus que pegou fogo no aviário?? LOL

8 de julho de 2010 09:15 Lidiany CS disse...

Eu já briguei muito no terminal norte, inclusive fui uma das que bloqueou a entrada e saída pq não tinha ônibus para a UEFS, mas isso eram outros tempos, em que era vista como arruaceira pelos fiscais, não deu em nada não adianta, o povo só faz balançar a cabeça e engolir a raiva.

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