Curto Circuito

| Por Uyatã Rayra |


Essa era da tecnologia é sensacional!! Várias informações, tudo ao mesmo tempo, ágil fácil e fugaz ...

Estamos maravilhados, felizes e radiantes com as inúmeras benesses dos tempos modernos: podemos de imediato nos comunicar em áudio-vídeo com nossos parentes mais remotos através do skype, guardar um milhão de fotos no pendrive, e possuir a coleção completa de Jorge Amado em PDF. Pagamos as contas, transferimos dinheiro e solicitamos cartões, com segurança digital criptografada. Ouvimos música folk do Kwait, remixada em Nova York, disponível no perfil do Orkut do nosso amigo do Crenguenhem que downloadiou com o Bluetooth do seu celular, numa festa de Aviões do Forró no meio da vaquejada de Serrinha, aliás, celular não, mp10.  



Riamos livres de todas as apertações de mente arcaicas, aquelas que nos obstruíam as veias do cérebro, que retardavam nosso gozo, e nos afastavam do futuro. Gritemos então com júbilo, e ovacionemos o progresso contemporâneo.

Eu continuo com a mente apertada!

Lembro da “liberdade vigiada” de Foucault a cada grito de independência!! Barril!!

Minha mãe me reclama diariamente por eu não ter um celular ... Diz-me que é um equívoco preferir manter tal grau de incomunicabilidade em plena era da informação. Eu estou cada vez mais angustiado com essa nossa era ... Temos uma sensação cada vez maior de liberdade, e não percebemos o quanto estamos cooptados, dependentes e controlados socialmente. Essa semana um amigo meu veio me queixar que no meio de uma cópula, o celular da sua cônjuge tocou, e ela sem titubear desconectou-se dele para ir ver quem era:

- Deve ser minha mãe - disse ela...

Era o irmão, perguntando em qual gaveta estava guardado seu celular ...

Diego, outro amigo meu, também não tem celular, nem por isso somos impedidos de manter um contato constante. Talvez nossa desconexão telefônica, nos permitiu criar outros tipos de relação, e não raro nos encontramos sincronicamente nos lugares mais improváveis. A incredulidade atual na telepatia, e em outros tipos de comunicação intuitiva, para mim, é impedida por estarmos intimamente ligados à exacerbação do uso dessas tecnologias pesadas. Afinal, para que acreditar em telepatia, se é só comprarmos alguns créditos na farmácia ali da esquina?!?!?!?

Não sou nenhum fundamentalista anti-tecnológico, na verdade essa reflexão é uma autocrítica também, pois estou viciado, reconheço-me enquanto, e rogo aflito por uma clínica de reabilitação. Pode até parecer teoria da conspiração, pós-modernismo, ou até devaneio, mas não é necessário diploma em Havard para percebermos o quão somos extremamente manuseáveis. É óbvio: quando abrimos contas nesses “Bancos do Futuro”, fornecemos-lhes nosso CPF, e com apenas alguns cliques, qualquer funcionário credenciado da agência pode saber qual o valor do nosso contracheque, qual a quantia dos nossos empréstimos e a em quais instituições nossos nomes estão sujos. As empresas de cartão de crédito têm uma lista, na qual consta as nossas preferências de compras, e se fizermos alguma aquisição que destoe da lista, nossos cartões são bloqueados. Quando abrimos uma conta no Gmail, concordamos tacitamente - naquela cláusula que quase ninguém lê – que esta empresa possa vasculhar impetuosamente nossos e-mails, não raro aparece-nos mensagens com ofertas de produtos que nos são interessantes. E por aí vai ...

É conveniente repudiar esses fatos e dormirmos tranqüilos, pois causa-nos desconforto a impressão de que estamos sendo vigiados. Retornei a pensar sobre esse assunto no final de fevereiro, quando fui fazer a minha carteira de identidade. Com o novo sistema, tudo está mais modernoso, no interior de cada documento vem impresso um código de barras, aí é só encostá-lo num leitor ótico e píííí: todos os seus dados estampam saltitantes a tela do computador. Recordei-me do Apocalipse!!!!



Somos tão escravos da tecnologia que, se hoje houvesse um curto circuito universal, POWWWWWWWWWWWW: CAOS: sem energia, internet, telefone, carro, televisão, rádio, dinheiro, indústria, água : ESTADO DE SÍTIO... Quem sabe, depois de um sem número de desastres, passaríamos a nos comunicar harmoniosamente??? Algumas predições maias apontam o final de 2012, como data seminal para modificações substanciais nas inter-relações humanas!! Eu tenho uma inclinação particular por essa premonição, e embora não saiba ao certo se será realmente em 2012 o tal acontecimento, já vejo agora em 2010 os sinais de que o homem e sua tecnologia não são os senhores supremos da Terra. Se não acreditarem nesse post, é só acessar qualquer site de notícias e lá verão a explícita fragilidade humana perante a natureza revolta -como a que assolou os chilenos e haitianos...

P.S. Em “Curto Circuito” eu pretendia falar sobre Tecnologia VS Controle Social, porém perdi o controle e desviei o assunto no último parágrafo para um caminho disperso, embora interligado. Acho que o tema desse último parágrafo merece alguns posts especiais, para que seja tratado com a acuidade. Farei isso algum dia...

3 comentários:

27 de março de 2010 06:31 Marcos disse...

Boa reflexão.
Segundo G. Deleuze estamos deixando a Sociedade Discilplinar de Foucalt e entramos na Sociedade de Controle. Esta nos oferece a impressão que temos mais autonomia, liberdade quando na verdade nada mais é que um sofisticadíssimo conjunto de mecanísmos de controles emaranhados neste rizoma "virtual".

Outro dia lí em um artigo no Scielo, intitulado Sociedade de Controle do professor da PUC; Rogério da Costa. Entre outras coisas o que me chamou atenção foi a meção a uma "nova e maravilhosa tecnologia" desenvolvida para as tv´s digitais: A tv constrói um padrão de comportamento de cada usuário e assim irá criar uma grade de programação baseada exclusivamente no seu comportamento com o controle na mão. A tv pode fazer isto com 4 membros da família. Isto é cômico e sedutor, assim como qualquer aparato tecnológico disponível ao consumidor comum: cômico, sedutor e supérfluo.

27 de março de 2010 22:19 Fabrcio CA disse...

Somos um número no sistema, uma pequena id que é associada a um conjunto de dados sobre consumo, localização, gostos e assim é possível gerar conhecimento sobre a pessoa e o sistema passa a ser inteligente e a se tornar mais relevante a cada dia, com isso as pessoas saem da cultura de massa e passam a viver em nichos de mercado e assim se tornam cada vez mais únicos em seus gostos e o dialogo começa a se perder, ou então mudar de forma para um novo sistema.

(micro texto escrito agora por mim com base em algumas idéias que eu venho tendo a algum tempo)

29 de março de 2010 08:27 Paulo Moraes disse...

Até a mentes das pessoas essa galera está disposta a ler, Santa mãe de Deus! E isso passou no Fantástico de ontem, que alías está a cada dia pior se é que algum dia já foi bom.

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