Conto Não-conto Angústia







A Morte Onírica
Por Calçada




A Morte vem silenciosa a qualquer momento, !é infalível!
Pra quem ela chega algumas vezes traz descanso; outras vezes traz agonia sofrimento felicidade e até alívio.
Para todos nós ela é a dúvida mais certa – A Morte.
!Ao defunto! qualquer destino que se der sabe-se que o fim é o esquecimento o desaparecimento. No máximo lembranças fulgazes.
Mas em quem fica, parece a Morte lançar-nos o seu vírus,  nosso destino último, que lentamente em algum dia sem importância alguma vai se alastrar por todo o corpo.
!A partir deste momento sentiremos o seu gosto doce ou amargo! ?será sem gosto e deliciosa como a água?
?Sua textura será áspera ou macia?
Prefiro acreditar que seja como entrar na alma da mulher que se ama; !acolhedora quente aconchegante e prazerosamente eterna!
Chegado o dia da descoberta a voz se acaba o olhar se esvai e os gestos se congelam.
!É o fim!
A Morte em fim.    








PREFÁCIO
Os textos escritos neste livro são para serem lidos! Se não, não os teria escrito, deixava todos eles onde estavam há muito tempo! 
Calçada

XLVIII

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico como o Universo.

“O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro.”











Justiça Canibal
Por Calçada




Não estou conseguindo dormir vou esquentar um leite e tomar com um pouco de açúcar; deito novamente rezo – é sempre bom fazer uma oração e conversar um pouco com deus antes de dormir ajuda a relaxar – não estou conseguindo dormir não consigo a pouco eram doze agora já são duas e trinta e eu não consigo dormir! Não agüento! Quero dormir! Preciso dormir. Levanto reviro a gaveta da cômoda! Cadê, cadê, cadê a droga dos comprimidos! Preciso de algum ansiolítico, hipnótico qualquer que seja, quero o sono em cápsulas.

 !Achei! 

Peguei um copo com água e tomei o remédio tomei vários quero apagar vou confessar tenho costume de tomar remédio é uma maneira de buscar a tranqüilidade. 

Mesmo assim ainda é uma busca. Não a encontro! Nem com uma porrada de remédios na boca do estômago! 

Deitei na cama, pronto pra dormir, relaxadamente, mais uma tentativa. Fechei os olhos, e assim fiquei não sei por quanto tempo, escuto um barulho na cozinha de pratos quebrando levanto não vejo nada volto pra cama sonolento deve ter sido no vizinho, novamente, fecho os olhos e relaxo outra vez o mesmo barulho levanto acendo a luz e nada confesso que fiquei intrigado e deixei a luz acesa. Deitei e permaneci olhando para cozinha que me trazia além da sensação de que algo estava errado, a de que tinha alguém na casa. 
!Nada aconteceu mas nenhum barulho!

Como já estava mais dormindo do que acordado nem me dei ao trabalho de apagar a luz, adormeci. – acordo com um miado de gato abro os olhos e a cama estava cheia de gatos de todas as cores, empurrei um, dei um chute em outro e cada vez aparecendo mais gatos minha coberta desaparecera eu estava enrolado em gatos os gatos começaram a me morder unhar primeiro meu corpo mutilando-o depois meu rosto desfigurando a minha imagem no espelho e por mais que eu tentasse me livrar eu estava enrolado neles pedi implorei pra acordar abri os olhos e me via deitado enrolado em gatos vivos.
Fechava os olhos e abria ligeiro para me salvar pois os gatos já estavam com pedaços de meu corpo brigando entre eles por todo o quarto, eu lutava para sair daquele sonho. !Sonho que nada! !pesadelo! queria acordar mas o máximo que consegui foi abri os olhos e perceber que estava dormindo.

Finalmente acordei aliviado por me livrar dos gatos, levanto e acendo a luz, quando olho, pedaços de meu corpo estavam espalhados pelo meu quarto e o quarto estava cheio de pessoas mal vestidas mendigos comendo os meus pedaços e sorrindo pra mim com um olhar ameaçador fechei os olhos e lembrei que eu tinha deixado a luz acesa ?como poderia acendê-la novamente? Eu ainda estava dormindo e ainda era o pesadelo ou eu acordara para outro sonho mais aterrorizante eu tremia chorava pedia pra acordar abria mais os olhos e nada os mendigos começaram a se levantar e vir em minha direção. !Fui afastando-me pra trás até cair numa grande montanha de onde eu via a multidão de famintos do mundo inteiro se levantando para saciá-la, a fome, com carne humana daqueles que moveram o mundo para conservar multiplicar a fome. Transformando-os em seres que não se sentiam humanos a várias gerações. Queriam vida !vida que não tiveram o direito de ter! !de viver! E a  multidão, caminhando junto a minha cama e de lá na grande montanha de mortos que eu estava  eu via a terra inteira famintos saciando sua fome dilacerando, comendo calmamente a carne doce dos exploradores de suas vidas.

De minha cama, da montanha de mortos, eu sentia a fome insaciável que move a engrenagem de nossa sociedade, é uma fome dos que ainda em vida estão e se alimentam diariamente de fome e dos que já partiram no colo áspero da própria fome. 

Vi da montanha dos mortos o passado de fome de índios, negros africanos, asiáticos, brancos pobres e mestiços a fome secular dos estômagos que morreram vazios e encheram o bucho dos que fizeram fortuna as suas custas! Homens de carga! Uma fome de milhões de estômagos e mentes que morreram por estarem quase sempre vazios ou por estarem cheios de idéias.

 !Aterrorizado! Apaguei a luz e corri em direção à cabeceira da cama fugindo deles. Caí senti que bati em algo duro, havia flores olhei ao redor e era o meu enterro minha mãe irmãos amigos vários conhecidos choravam todos bem velhos, olhei para minha mão e ela estava enrugada, eu estava velho, me esforcei pra acordar e abri os olhos e do meu quarto acordado eu me via numa sala morto e velho. Morto, eu via que tantos ainda morriam de fome, eu chorava no caixão, morto !eu não fizera nada pra mudar! Eu velho e as pessoas continuavam morrendo de fome jovens com a aparência mais velha que a minha de velho, morto... 

Acordado, com a luz acesa fui até a cozinha tudo estava lá, voltei pro quarto.
Rezei pedi pra acordar daquele pesadelo e nada! Eu nunca estive tão acordado! 

Na minha cama chorando e me vendo num futuro-presente, vi um gatinho entrar no quarto com os pêlos sujos de sangue? e quantos morrem de fome a cada dia? Eu estava estático, imóvel e não via minha coberta. Rezei, rezei! Clamei pelo arrependimento e a salvação! !deus! !nossa senhora! Clamei e implorei pra crer que o reino dos céus é dos que passam fome, rezei, orei, não me convenci. Continuei me vendo morto, vendo o mundo e a multidão de famintos espalhada por todo lugar, vendo um gato passar sujo de sangue, rezei pra que todos os famintos se juntassem num último sonho! Juntem-se todos! Morrer aos poucos? Não! Um último sonho: o pedaço de pão que lhes cabe para saciar sua fome, morram mas não como se tivessem dono saciem a fome !come some fome tome!...               

Venham todos, devorem minha carne pouca que caminha, minha visão curta sobre o mundo, mas, saciem a sua fome!

Finalmente acordei ofegante, mas, minha vida continua inútil e egoísta, quando deu meio-dia não lembrarei mais do sonho e almocei até saciar e joguei o resto do prato no lixo, estou em paz como todo mundo...


3 comentários:

15 de março de 2010 05:15 M. Correia disse...

Salve, Calçada!

15 de março de 2010 10:47 DSL disse...

calçada entrou de sola (desculpem o trocadílho infame). e as ilustrações estão louváveis.

22 de março de 2010 08:16 Lorena disse...

Tenho pensado nos últimos tempos que a verdade sobre o que foi vivido somente aparecerá no sopro que antecede a morte. Um avida não basta para esgotarmos. Entre vida e morte, há uma verdade supensa no ar. Mais não digo, Calçada. Prefiro ficar à espreita por ora.

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