Das tripas coração


Nome: Cidade da Cultura
Endereço: Rua H, nº 170 / Conjunto João Paulo II

“Eu vivia à sombra dos outros artistas”

Como surgiu o bar

O senhor Asa Filho possuía um espaço no Conjunto João Paulo II e até então não tinha nada melhor para fazer por lá. Numa conversa com o também artista Cescé, surge a idéia: abrir um estabelecimento artístico naquele local.


Quem é Asa Filho

Asa Filho nasceu em Tiquaruçu, no interior da Bahia. Tinha a música dentro de casa, mas também tinha o pai que, dentre os outros moradores da roça, era dos mais “sabidos”. Um pai que, na sua devida sapiência, chegou à conclusão de que seu filho – Asa Filho – deveria estudar e ser médico ou advogado, e nada mais. Mas Asa tinha a música dentro de casa, e tentou fisgá-la. A partir de então, viveu nesse meio-termo, entre a música e os estudos. Fez faculdade, fundou a Universidade Estadual de Feira de Santana como aluno, e se formou. Casou-se e teve filhos. A seu ver, isso o “impediu” de uma carreira artística plena. Hoje, com os filhos crescidos e educados, vê-se mais à vontade para dedicar-se à sua arte, e é o que tem feito. 


Asa Filho acreditava que, na época, se se enveredasse pelo caminho do profissionalismo na música, talvez não lograsse êxito, porque Feira era uma cidade fundamentalmente boêmia neste aspecto: as pessoas se apresentavam à toa, os artistas não tinham preocupação séria com suas carreiras. Mesmo a palavra “carreira” parecia incompreensível. Hoje, o painel é diferente: há a sede pelo destaque, pela glória, pelo reconhecimento. Obviamente, os novos mecanismos de comunicação auxiliam neste processo. E é apenas hoje que Asa procura seu espaço enquanto artista. Hoje é “solteiro” da criação dos filhos. Finalmente, então, Asa Filho funda o Cidade da Cultura e passa a administrá-lo com sua mulher Jaci. E tudo partira de uma conversa com Cescé.

“Feira tem muito desse diletantismo, muito.”

O Cidade da Cultura

Por que fundar um bar com palco para apresentações artísticas num local aparentemente pouco estratégico? Em primeiro lugar, diz Asa Filho, Cidade da Cultura não é um bar. Cidade da Cultura é, sim, um espaço com palco para apresentações artísticas – o fato de ser bar é mera conseqüência. De onde vem este raciocínio? Do fato de que Feira é uma cidade estigmatizada pela sua cultura unilateral, a saber, a cultura dos bares. Pouco se valoriza o cinema e o teatro, bem como qualquer arte. A cidade possui um museu a cada trezentos bares. Logo, como atrair o público para um local onde se tenciona mostrar exatamente isso, teatro, música, poesia, artes plásticas? Inserindo-lhe funções de um bar: mesas típicas, bebidas alcoólicas e comida, e a estrutura necessária. Aí está, para usar os termos do próprio músico e poeta, a grande “jogada de marketing” do Cidade da Cultura.

“Tudo de cultura em Feira é quarto, quinto plano.”

* * *


Eu
Não fui nem meia dúzia de vezes ao Cidade da Cultura. Não sei se é necessário estar familiarizado com um bar – uso o termo “bar” para abreviar o “Cidade da Cultura”, pelo único motivo de que é bem mais rápido digitar uma palavra de três dígitos do que três palavras que totalizam quinze dígitos – para poder falar dele. Talvez seja, se for falar com paixão. Mas não tenho pretensão de falar com paixão deste bar, não porque não tenha paixão por ele ou nunca terei, mas porque tenho o direito de escolher meu tom ao escrever um texto. Me parece que não devo dar satisfações a leitores, mas, por outro lado, acho que, no final das contas, devo dar sim – vocês, leitores da Transa, têm esse direito.

Sempre no momento em que eu entro no Cidade da Cultura eu não consigo ficar à vontade, mas no bom sentido: é que a decoração da casa me chama muito a atenção. Só depois é que fico relaxado. São plantas e ninhos de pássaros pendurados no teto (e o teto é baixo), quadros, banners e fotos fixados nas paredes, cordéis de Asa Filho pendurados num canto, cartazes de outros eventos pendurados no outro. Sempre, em seguida, como um ritual, penso que vou sentar em mesas de madeiras artesanais, talhadas em linhas tortas, mas elas invariavelmente estão em seus formatos de quadriláteros perfeitos. A luz ambiente muito me agrada.

Asa Filho
O Cidade da Cultura tem 6 anos, sabe? Bar em Feira é entretenimento! Por isso que minha casa de espetáculos é, por conseqüência, um bar – para atrair as pessoas. É preciso injetar cultura nessas pessoas. Outro dia um cliente meu, vendo aqui um recital de poesias com Nívia Maria Vasconcelos, veio me dizer “Asa! Eu nunca vi isso na minha vida!” – o cabra tinha mais de quarenta anos de vida. 


Eu
Quando abro o cardápio, vejo lá uma notável lista de 10 mandamentos! Não pode dar amassos, no máximo um selinho – esse é um dos mandamentos que mais chama a atenção. Só tenho restrições com o preço da cerveja, que hoje é comum nesses bares: R$ 3,50! Mas, em Gilmar, que fica na Kalilândia, temos a eterna Dávila de R$ 1,70, hoje substituída pela Glacial de R$2,00.

Asa Filho
Aqui não é um bar onde as pessoas xingam alto, gritam, armam barracos, agridem; aqui é um espaço onde a família vem e volta cedo pra casa, até pela localização. Aqui eu peço para as pessoas falarem mais baixo. Em qualquer bar, se tem alguém falando alto e te incomodando, você provavelmente vai sair dali e se dirigir a outro lugar. Você não vai chegar para o inconveniente e dizer “Ô rapaz! Fala mais baixo aí!”. Mas aqui eu faço isso. Vão dizer: esse cara é louco, pedindo pra falar baixo em um bar! Mas eu chego perto e chamo a atenção, falo cordialmente, digo que tem gente se apresentando no palco, e o sujeito, aos poucos, vai entender o que eu estou dizendo. E, com isso, eu consigo o seu respeito. É dessa forma que eu e Jaci, minha esposa, cuidamos do Cidade da Cultura.


Eu
Nunca voltei do Cidade da Cultura de pé ou de ônibus. Sempre consegui carona, das 3 ou 4 vezes que fui. Isto, particularmente, me faz crer que não completei em 100% minha assimilação do bar. Para mim, você só vai “cem por cento” a um bar quando volta dele andando pra casa, ou mesmo pra um ponto de ônibus que não seja tão próximo quanto andar alguns metros até onde o carro da carona esteja estacionado. Porque o estado de embriaguez não se dá apenas pela quantidade de álcool ingerida, mas pelo ambiente e pelas pessoas com quem você está, e é preciso sair andando para você poder sentir sua ebriedade nas pernas.

Asa Filho
Feira é uma cidade rica e pobre ao mesmo tempo. Os políticos não se preocupam com a cultura da cidade, e eu culpo eles por isso, mas em parte; esse desleixo vem de uma causa maior, que é o uso de Feira, politicamente falando, como trampolim: os prefeitos daqui estão interessados em galgar para uma posição maior no cenário nacional. Ainda bem que o prefeito atual é feirense. Não falo isso por bairrismo. Não é bairrismo. Mas, numa cidade que tem sucessivas gestões de prefeitos não-feirenses, ter um prefeito feirense sempre poderá ser, por mais que isso pareça um paradoxo, uma nova visão para a administração da cidade.


Eu
Eu e Caio estamos hoje no Cidade da Cultura, 20 de março de 2010, entrevistando Asa Filho e a atração do dia, o paulista-baiano Carlos Silva. Durante a apresentação, Asa Filho chama a atenção para nós, e agradece nossa presença. Carlos Silva vai mais além: pede para que o público nos aplauda. E somos aplaudidos. Ficamos felizes com isso, é claro. Talvez Asa tenha realmente gostado da nossa ida ao bar. Não sei se por engano ou por esse fator, comemos uma calabresa com farofa e salada (uma para cada) e não foi cobrado na conta (só percebemos isso depois que tínhamos ido embora).

Asa Filho
Consegui alguns apoios da prefeitura, como o Pró-Cultura, e com ele gravei este disco que estou dando a vocês, o “Asa Filho e o Reisado de São Vicente”. O Cidade da Cultura, aliás, vem da ORCARE, a Organização Cultural e Artística Reisado de São Vicente, que fundei. Mas pra conseguir esses apoios tem que fazer projeto, tem que batalhar, correr atrás. Pretendo, além de manter esta casa, fazer oficinas de canto e coral para crianças daqui. Vou em escolas e faculdades divulgar meu trabalho, apresentar minha proposta. Tenho minhas dificuldades, mas faço das tripas coração para manter este espaço. Tudo começou há 6 anos atrás, numa conversa com Cesse. Mas ainda só está começando. Como vocês, da Transa. Trabalho sério. Trabalho. Só o diletantismo não funciona mais hoje.

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Nome: Cidade da Cultura.
Endereço: Rua H, nº 170 / Conjunto João Paulo II.
Cerveja: Bavária.
Estado do banheiro masculino: Limpo.
Estado do banheiro feminino: Não sei, nunca entrei lá.
Índice de mulheres bonitas: Alto.

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João Daniel G. Oliveira é membro do Conselho Editorial da Transa Revista. As fotos foram retiradas do fotolog do Cidade da Cultura. As pinturas são de Van Gogh.

1 comentários:

24 de março de 2010 06:16 Lorena disse...

gosto de sua escrita porque é descortinada. é porta aberta para o leitor entrar.

"é preciso sair andando para você poder sentir sua ebriedade nas pernas".
hahaha...eu me identifiquei muito com as suas impressões sobre o "bar" e, como não podia deixar de ser, revisitei minhas memórias sobre o amálgama sobriedade-ebriedade que vivo. não separo tais estados porque hoje finalmente me reconheço lúcida o suficiente para extrair o máximo de experiência de ambos.

Salvo engano, a Cidade da Cultura é um dos Pontos de Cultura de Feira de Santana. O que isso quer dizer?
Quer dizer que uma iniciativa da "sociedade civil" foi selecionada, após lançamento de um edital público e firmou convênio com a Secretaria do Estado e com o Ministério da Cultura.

Como tal, possui a finalidade de articular e impulsionar ações existentes nas comunidades locais, fortalecendo as manifestações de arte, educação, cidadania, cultura e economia solidária.

Pode receber anualmente até R$60.000,00, em capital e custeio.

que pode ter acesso: associações, cooperativas, fundações, escolas comunitárias, organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIPs, organizações não-governamentais (ONGs, sindicatos...que funcionem há, pelo menos, 2 anos...

Fonte: http://www.pinet.com.br/secult/default.asp

Fico feliz por ver que uma iniciativa tem dado certo.

o entanto, torço muito para que outras comunidades, outras iniciativas, outros espaços, outras gentes da Feira...se apropriem dessas informações, desse conhecimento, desse canal, desses recursos...

Para que a cidade não seja mais um mero trampolim, um gueto, um bolo, cuja maior fatia é abocanhada por poucos.

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