A montanha vai a Maomé



Ultimamente tenho pensado bastante em algo que há muito não pensava, acredito que todos que agora lêem este texto já pararam pelo menos uma vez para pensar no que existe além deste confortável e complexo planeta que habitamos. Cometas, meteoros, estrelas, buracos negros, astros gigantes, aquela velha história de que somos um grão de areia ante a imensidão do universo. Tudo isso funde nossa cuca, e olhe que nem vou apelar para as viagens da ufologia, fico só na astronomia mesmo, que já tem muito pano pra manga pensar nos milhões de entes giram no espaço distantes anos luz da nossa bola azul. Pois então, sabemos que é azul isso é um fato, um russo, melhor, um soviético nos anos 60, antecipando-se aos ianques na corrida espacial durante a guerra fria, foi o primeiro a nos ver de fora e afirmou “é azul”. Acredito que essa viagem foi um choque, não só para os que estavam presos “na cela de uma cadeia”, mas para todos os que estavam presos pela gravidade em nossa eterna alcova. Depois disso, diversos outros cosmonautas e astronautas partiram em expedições espaciais, a lua já foi visitada, até um brasileiro foi passear fora órbita terrestre e hoje tenente-coronel da FAB, aposentado aos 43 anos, é celebridade nacional (há quem diga que um privilégio merecido, o segundo privilégio). Entretanto, como visitar o espaço ainda é um privilégio que tão cedo não será socializado aos “terráqueos comuns” nos contentamos com Hollywood.


Diante disso, acho que posso usar um dito popular que deve ter sido herdado da ocupação árabe na Península Ibérica para resumir minha impressão sobre um fato extraordinário que aconteceu pelas bandas do Cochó-do-Pega, também conhecido como Seabra no interior da Bahia. Toda uma população de Maomés viu embasbacada uma montanha rasgar o ar sobre suas cabeças na noite de quinta feira dia 21 de janeiro em torno das 19h. Por ironia do destino, quem, com certeza, nunca se imaginou num ônibus espacial, nunca viu Kubrick, ou talvez nem saiba que a Terra vista de fora é azul, esférica e achatada nos pólos ou nem saiba o significado da palavra esférica ou pólo, viu e ouviu um objeto extraterrestre, em alguns casos sentiu o chão tremer com o abalo provocado pela colisão da grande bola-de-fogo em alguma serra da região. O provável meteorito foi avistado no céu da Chapada Diamantina desde o Vale do Capão, no município de Palmeiras até o povoado do Baixio do Angical em Seabra.


Estava eu, no momento do espetáculo, mergulhado no maravilhoso mundo da internet e de costas para a janela de onde se vê céu, e por estupidamente priorizar a tela luminosa ao firmamento estrelado perdi o vôo da bola-de-fogo. Quando, no dia seguinte, Jackson (um colega de trabalho) me contou a história que se espalhava na cidade fiquei louco, “jura?”, “quem viu?”, “onde caiu?”, “chamem a NASA!”, dei mil telefonemas, e comecei a busca pelo Meteorito do Cochó.

Andei vasculhando a rede a procura de informação sobre entidades responsáveis por verificar esses casos, mas nada me pareceu sério ou confiável, então decidi procurar por conta própria (o pessoal do Departamento de Física da UEFS pareceu se interessar pelo caso, mas até agora não houve nenhuma ação concreta). Inicialmente meu único interesse era achar o bendito ente celeste que entrou na atmosfera e veio cair justo aqui, no Vale da Cotréa, na princesa comercial da Chapada Diamantina, por onde passou a Coluna Prestes, onde houve guerras entre Coronéis, onde os tropeiros que seguiam para o oeste descansavam na rua da palha, onde eu agora trabalho, resido e tomo cerveja regularmente no quiosque da Uidmar. Segui com três amigos (entre eles Orahcio, físico ex-estudante da UEFS que hoje se pós-gradua na UFF, perto de nós quase um representante da NASA), com uma câmera na mão e muitas idéias na cabeça, para os povoados em que se supunha pudesse ter caído o novo Bendegó.

Ginaldo, Fernando e Orahcio no povoado de Campestre em busca do meteorito.

Não ter visto o meteorito me impede de descrever minhas impressões sobre o evento, portanto relatarei apenas o que ouvi falar. E ouvi falar muita coisa, hipóteses fantásticas para explicar tão inusitado episódio. O que para nós seria de pronto identificado como um meteorito, para a população de dos povoados do Campestre, Barro Vermelho, Tenda e Baixio do Angical tem várias explicações, exceto a que nos ocorreria imediatamente. Por uma questão de respeito aos relatos chamarei apenas de bola-de-fogo o objeto cerne do deste discurso.

As reações à passagem da bola-de-fogo que soltava faíscas e fez um estrondo horrível ao se chocar com o solo foram diversas, da tranqüilidade de quem achava que era apenas um diamante mudando de uma serra para outra (uma lenda do garimpo em que várias pessoas acreditam) ao pavor de quem estava pensando que se tratava do apocalipse. A explicação mais recorrente, entretanto, diz respeito aos cristais que se movem, apesar da ressalva sobre o tamanho da bola-de-fogo, esta era muito maior do que os cristais voadores que os antigos, e também alguns jovens, vêem saltar de um morro a outro. Acreditar neste fato pra nós é tão inconcebível quanto pra eles é, acreditar que existe um monte de pedra voando no espaço e de vez em quando, como quem não quer nada, vira uma bola-de-fogo e cai terra. Pense se alguém vai deixar de acreditar na sua avó, que aprendeu com o avô dela, pra acreditar num cabra que ele nunca viu na vida, anda por aí procurando bola-de-fogo, e ainda por cima fala chiado, sem dúvidas eu ficaria com a minha avó.

As buscas à bola-de-fogo continuam, e provavelmente ela caiu numa serra logo após (a oeste) ao Baixio do Angical, mas agora meu interesse maior é nos cristais e diamantes que voam. Vocês terão a oportunidade de ver esses depoimentos posteriormente no Blog da Transa, ou num documentário, que espero fique pronto ainda este ano.

Vocês devem ta se perguntando que porra é que um texto sobre um meteorito em Seabra tá fazendo num blog de uma revista que pretende ser “um canal de diálogo com a juventude universitária feirense”, pois é, nem eu sei. Como diria Eder, é a suprema aleatoriedade!



Ginaldo Farias, graduou-se em Direito pela UEFS em 2008 e hoje caça bolas-de-fogo na Chapada Diamantina.    

7 comentários:

24 de fevereiro de 2010 20:17 ópiodosintelectuais disse...

"Apenas duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. E não estou muito seguro a respeito do universo." - Albert Einstein

25 de fevereiro de 2010 04:59 Lorena disse...

Aqui e aí, distantes, somos errantes navegantes. Saudações do meu mundo, Ginaldo (astronauta do mundo de lá).

7 de março de 2010 19:50 Ana Paula Duarte disse...

“um canal de diálogo com a juventude universitária feirense”
Se a intenção do Blog da Revista é essa(como eu acredito que seja, apesar de alguns pesares), seu texto é altamente coerente...Todos nós estamos "caçando" alguma coisa.

13 de março de 2010 23:50 riciereseabra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
13 de março de 2010 23:55 riciereseabra disse...

Pelo menos duas razões permitem abordagem de tal tema nesta página, camarada, uma que a característica de todas as feiras é mesmo arrebanhar gente para que os encontros aleatórios e possíveis trocas se concretizem, feiras são de todos os lugares, e se não foge essa Feira de Santana, nem o meu saudoso Vale da Cotréa, a esse destino comum aos entrepostos do universo, semelhante será a vocação do universo e, por conseguinte, deverá ser a da universidade. Brilhem seus astros à vontade e caiam bolas de fogo sobre os nossos, que causem desordem e nos reorientem, num velho devir, por que assim é, e sempre. Saudações.

19 de abril de 2010 10:14 as orquídeas disse...

Olá, até que enfim, um comentário sobre o "METEORITO"....
Gostria de saber em que pé estão as pesquisas?
Moro na Chapada e soube do fato, muitos viram e ouviram a explosão.
Também soube que caiu perto de Xuré??? perto da Fazenda Prata.
Bom, fico no aguardo de mais notícias.
Obrigada
Diana

22 de maio de 2010 19:13 Danilo disse...

Eu tava pesquisando baixio do angical no google e achei esse post. Eu tenho três tios e vários primos que moram lá, inclusive uma tia tem uma roça e mora bem no pé dessa serra (se for a que eu to pensando), vou tentar saber com ela se ela viu isso.
E como anda a procura? Essa foto é desse meteorito ou é de um qualquer?
Boa sorte na busca!

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