Ali Babá e os 70 ladrões

A cocaína não surgiu logo de cara como uma substância considerada nociva ao homem. Primeiro porque é derivada da Coca, uma planta que tem suas folhas consumidas até hoje em forma de chá e/ou mastigada pelos nativos de países da América do Sul, como Peru e Bolívia, tendo um efeito muito menor do que a cocaína sintetizada em laboratório. 



Feita uma pesquisa mais aprofundada sobre a história da cocaína encontramos que a mesma sempre foi fonte de prazer em encontros de artistas, intelectuais e pessoas da alta sociedade; em festas, era servida na bandeja (coisa parecida aconteceu com o ópio). Muitos poetas têm sua obra marcada por versos que demonstram uma total viagem na psique, fortemente marcados por sinestesias e demonstrações de desenvolvimento dos sentidos. Já foi vendida na farmácia e hoje, com seu consumo e produção proibidos, é fabricada clandestinamente em laboratórios e "casas especializadas". Já teve como slogan "substituir a comida; tornar os covardes corajosos, os silenciosos eloqüentes e os sofredores insensíveis à dor".  


Freud se utilizou dela para tratamentos em alguns pacientes e escreveu até um livro sobre o seu uso.


Setenta pessoas foram detidas em Feira de Santana porque estavam em uma festa onde os convidados eram gentilmente convidados, com o perdão do infame trocadilho, a utilizarem pó, maconha e adjacentes. O anfitrião era uma referência, por assim dizer, do tráfico na região. 

“A festa em comemoração aos 25 anos do traficante Josenildo Borges de Souza, conhecido como “Pona” não teve um final feliz, na tarde desta terça-feira (23/02), pois policiais civis de Feira de Santana realizavam no Bairro Jardim Cruzeiro, uma operação denominada “Rebolation”. A ação foi realizada em uma casa de eventos localizada na rua Porto Seguro, onde acontecia a festa. Além do aniversariante, os policiais prenderam mais de 100 pessoas, entre elas 70 homens, 28 mulheres e 12 adolescentes. Na casa de eventos foram encontrados, muita cerveja, cocaína, crack, maconha, lança perfume e cerca de R$ 7.000 em dinheiro, que segunda a policia eram proveniente do tráfico de drogas.” 



Algumas questões a serem pensadas, para além de todo aquele papo dos efeitos nocivos que as drogas causam a sociedade e toda aquela história “tropa-elitiana” : 

a) Todos sabemos que todos os dias filhinhos de papai em todo o Brasil fazem festas como esta, atores famosos, políticos, pessoas muito conhecidas que têm a cara estampada todos os dias nas páginas do jornal e não é na sessão policial mas sim no Caderno 2.

b) Todos os setenta presos ou no mínimo sessenta deles eram pretos.

c) Feira de Santana tem muito mais coisas que com toda a certeza chamariam a atenção do telespectador de todos os meios nos quais essa mesma notícia foi vinculada. Coisas que a imprensa local também não divulga, por interesses outros.

d) Faltou classe e inteligência aos nossos companheiros citadinos? 

Este texto não quer suscitar nenhuma discussão quanto aos supostos benefícios ou malefícios em relação ao uso das drogas, mas sim - como diria o saudoso Allan - sobre o nível de consciência de usuários, ou não-usuários. 

10 comentários:

26 de fevereiro de 2010 16:46 bigo disse...
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26 de fevereiro de 2010 16:48 bigo disse...

Uma metralhadora!Rá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá-Tá!!!!!Um tiro!Uma bomba colorífica implodindo cabeças carcomidas.

26 de fevereiro de 2010 19:56 Ana Paula Duarte disse...

Gostei do texto, demais!
Não havia ainda visto por este lado social e de fato, pensado e repensado sobre o nível de consciência de usuários, ou não-usuários.
Mais uma vez, o noticiário esbanjma o ciniso social...
É triste, mas há os que pensam além do que ela diz...Prova, este texto!

26 de fevereiro de 2010 20:13 André do Carmo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
26 de fevereiro de 2010 20:19 André do Carmo disse...

velho a condição de raça aqui na Bahia não existe, foram presos negros porque a bahia é um estado de maioria negra...
Com relação ao nível de consciência é uma questão bem abordada no texto eu diria que existe uma ampliação na percepção do Usuário, mas há também a redução da consciência do mesmo! percepção X consciência são coisas bem diferentes ao meu ver!!

Mto bem fundamentado o texto

27 de fevereiro de 2010 17:18 José Caetano de Jesus Filho disse...

"velho a condição de raça aqui na Bahia não existe, foram presos negros porque a bahia é um estado de maioria negra..."
Essa frase me inquietou muito, proporcionando uma reflexão que, acredito eu, o caro André não fez. É simples, basta nos perguntarmos o motivo dessa mesma negritude não se encontrar representada nos espaços de poder político; nas universidades; nos cargos de direção, mesmo do setor privado; não tendo nem o direito de uma moradia nas regiões centrais das cidades. Será que sua afirmação tem procedência André?

28 de fevereiro de 2010 08:09 Marcos disse...

"O nível de consciência de usuários" talvez, esteja bastante comprometida pela droga para poder julgar sensatamente a situação. Pode ser que alguém faça uso de drogas e não se transforme em um dependente químico, contudo, isto é bastante raro, a dependência é um caminho quase certo, por isso qualquer combate ao tráfico e uso de drogas, a meu ver, seria louvável. Evidentemente, que prendendo, setenta usuários/traficantes -pretos ou não - em uma festa de aniversário do "chefe", não compropmeteria em quase nada a circulação deste produto nesta cidade, visto que a cocaína não é fabricada aquí. Uma ação mais eficiente poderia ser feito nas fronteiras, contudo envolveria interesses de muitos daqueles frequentadores do caderno 2 dos jornais. Enquanto isso...

28 de fevereiro de 2010 11:20 Transa, revista disse...

Marcos, queríamos que deixasse seu contato conosco, pois gostaríamos de convidá-lo para escrever um texto para o blog da Transa.

Nosso e-mail é o de sempre: transarevista@gmail.com

Atenciosamente,
Equipe Transa.

28 de fevereiro de 2010 13:43 Dolores Rodriguez disse...

Caro André, é assombroso, no entanto, que essa maioria negra esteja tão ausente das posições de representatividade política, social, ideológica, etc,etc. Preconceito racial existe, é inegável. Ou o caro amigo pensa que os negros estão afastados, por assim dizer, do "poder" por razões místicas desconhecidas? Ou por pura coincidência? Ou pior, por falta de capacidade? E não é à toa que é atribuído ao povo negro as características do "eterno marginal". Não é à toa que seu Joaquim da padaria, homem negro, ao ver na televisão essa notícia deve ter soltado uma "piadinha" pra algum cliente que estava por perto, algo como : "Só podia ser coisa de preto". Vamos rever isso aí. A sociedade é racista, e assumir isso é o primeiro passo pra vencer o racismo.

3 de março de 2010 05:31 Paulo Moraes disse...

Caro Marco

Só uma pequena oposição a sua colocação. Acho que na verdade é uma minoria que se torna dependente do uso de subbstância que alteram a percepção, e normalmente só ligamos essas substancias as que foram proibidas e essas proibições também são históricas e levam enquanto a diversas relações envolvidas como no caso da Cannabis, que existia em todo o mundo e devido ao preconceito dos Estadunindenses em relações aos Mexicanos que a usavam após ao almoço para dar uma relaxada para voltar ao trabalho duro das fazenda do oeste, ocupado e invadidas pelos maiores defensores da propriedade privada, no inicio do secúlo XX e assim começou a proibição da Cannabis no mundo inteiro.
(Mais informação no documentário da Super Interessante "A verdadeira história da Maconha")

Abraços

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