Futebol, PSOL e sangue

|Por João Daniel G. Oliveira*|


Eu nunca gostei do goleiro Bruno. Sempre tive uma antipatia tremenda por ele e, no futebol em geral, costumo nutrir antipatias semi-gratuitas com jogadores que em sua maioria são goleiros. No caso do Brasil, quase todos passaram pelo Flamengo: eu detesto Julio Cesar desde sempre e não gostava de Clemer quando ele defendia o Mengão. Juro para vocês que eu não tenho nada contra o Flamengo – é apenas uma coincidência.


 
Hoje, não sei se desgosto mais ainda de Bruno devido ao caso Eliza Samudio – a mídia e o povo já fizeram isso por mim. Não se fala em muitas outras coisas nos jornais, nas revistas, na internet, e olha que estamos em ano eleitoral e mal acabou uma Copa do Mundo de Futebol. O próprio site da Transa Revista, para o qual estou redigindo esse texto, falou bastante de copa e de política. Quando o caso Bruno tomou conta das manchetes, pensei que a Transa iria abocanhar seu pedaço. Mas não foi o que, até agora, aconteceu. Por isso, resolvi não deixar essa mina de ouro midiática passar em branco. Vamos, então, falar do caso Bruno. A Transa também é mídia.

Mas eu não vim aqui expor minha opinião sobre a vida e a morte de Eliza Samudio, nem criticar o goleiro, nem questionar os métodos questionáveis de uma questionável investigação do caso por parte da polícia de Minas. Eu poderia discorrer sobre o pensamento absurdo que circulou no twitter, por exemplo, de que, por Eliza ser uma ex-atriz pornô e supostamente profissional do sexo, ela era, por tabela, uma vadia e vagabunda e, por conseguinte, merecia morrer do jeito que aparentemente morreu – desossada por macarrões tatuados e ex-policiais civis e devorada por Rottweilers. Essa idéia foi bastante tuitada e retuitada na rede, o que só pode significar duas coisas: ou a maioria das pessoas têm um senso de humor negro acima do suportável, ou têm valores cristãos acima do tolerável. Nem mesmo isso, todavia, eu irei comentar. Se acham interessante a temática, podem ler um texto do ex-BBB e atual candidato do PSOL Jean Wyllys: http://jeanwyllys5005.com.br/toda-mulher-e-meio-eliza-samudio.


Eu vim aqui em defesa da mídia. Sim! A mídia é poderosa! Estou parecendo Uyatã Rayra escrevendo assim, mas eu realmente penso dessa forma! Todos adoram criticá-la, culpá-la pela alienação alheia, pela distorção da realidade! Quando surge uma notícia e passam a falar dela exaustivamente, todos se indignam, pois consideram isso uma lavagem cerebral! Mas, vocês já pararam pra pensar que dá muito trabalho fazer diariamente um programa com várias notícias atualizadas do mundo? Que é necessária uma equipe imensa e muita disposição para tal? Que muitos profissionais da área não comem feijão, não almoçam direito, não dormem, trabalham nos feriados? É só por isso que a mídia adora insistir num tema, quando ele fica famoso: porque aí não precisam sair loucos correndo atrás de mais notícias, e podem trabalhar mais tranquilamente, com um foco mais centralizado. Eu mesmo, como editor de um jornal do meu curso na faculdade, sempre me vi doido correndo atrás de matérias; na última edição (que ainda não saiu), eu e meus colegas decidimos fazer uma edição temática (isto é, sobre um tema só); resultado: decidimos tudo em uma reunião e agora só estamos esperando os textos! Foi bem mais fácil! Assim é a mídia! O pessoal respira aliviado quando pode insistir num tema! E o tema de agora é o goleiro Bruno e sua ex-amante Eliza Samudio!


Por isso, deixo uma mensagem para vocês: não se estressem com a mídia. FIQUEM DE BOA. Apenas atentem para uma coisa: existem fatos que a televisão e os jornais não noticiam. Por exemplo, enquanto a polícia de Minas está louca pra botar Bruno atrás das grades, aqui em Feira de Santana, ali, ali mesmo, pertinho da sua casa, próximo ao Shopping Boulevard, uma menina de seus 16 anos que mora no Ponto Central fora brutalmente agredida pelo próprio pai, pelo simples motivo de que este chegara embriagado em casa e necessitava espancar alguém. A namorada de um amigo meu acabava de sair de casa quando uma jovem ensangüentada lhe pedira ajuda. A namorada do meu amigo ficara chocada, pois a moça estava cheia de cortes; levou-lha para dentro de sua casa, para tratar os ferimentos. Segundo a moça, seu pai havia lhe espancado e em algum momento do show jogara-lhe copos de vidro (por isso os cortes). A vítima, então, resolveu sair do Ponto Central rumo a uma delegacia de polícia (que fica próxima ao Fórum Filinto Bastos) na rua Artur Bernardes ou Alcides Fadiga, não me recordo ao certo. Foi dar queixa do pai e pedir ajuda. A polícia, não sei porque, não quis registrar a queixa, pois a moça era de menor e, segundo conta meu amigo, ela deveria ser encaminhada para o Conselho Tutelar ou coisa do gênero. Bem que a polícia, com todas aquelas viaturas tão bonitas e úteis, poderia levar a moça lá, não? Ou pelo menos em algum hospital? Mas, nem isso eles fizeram. Apenas deram esse recado à moça e mandaram-na passar bem – eles tinham mais o que fazer.


Como os policiais conseguiram agir tão friamente vendo uma menina ensangüentada e cortada, eu não sei. Essa história não está na mídia, não está impressa num jornal e nem tem ISSN. Eu a ouvi da boca de um amigo. Sua namorada, aliás, depois de prestar os primeiros socorros, levou a menina até o ponto de ônibus, pois ela deveria ir até o Feira VI, para a casa da tia. E é por isso que eu pergunto: qual dessas alternativas é a correta?


1) Vê-se, pelos dois casos, que a polícia baiana é completamente diferente da polícia mineira.
2) Na verdade ambas são iguais, mas, como o goleiro Bruno é famoso e o caso dele com certeza teria repercussão midiática, a polícia de Minas resolveu se esforçar ao máximo para fazer um “bom trabalho” e ter sua boa imagem preservada.
3) A polícia baiana não age dessa forma – o caso dessa menor ensangüentada foi uma raríssima exceção.
A resposta quem decide é o leitor.





*João Daniel G. Oliveira é colaborador da Transa Revista

2 comentários:

30 de julho de 2010 16:48 ópiodosintelectuais disse...

Em toda essa exposição de fato e nomes, se observa de sobre maneira uma análise racional efetiva a cerca da realidade provocada pela mídia
e por onde deve-se buscar os indícios de uma suposta consciência crítica para o sujeito lhe dar com o contexto societal coevo.

E o que de longe impressiona e o aparecimento do Partido dos comuna com o destaque para uma candidatura, em detrimento de suas pontuações nas pesquisas.

Olha a jabulani PSOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLL!!!!!!

18 de outubro de 2010 17:14 Yuri disse...

Não acredito que quem escolhe as matérias para serem divulgadas sejam os trabalhadores e menos ainda que a escolha por casos polêmicos seja uma medida para aliviar a vida dos funcionários d'uma empresa como a Globo.
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Muito pelo contrário, quem deveria procurar notícias agora se concentra e se sobrecarrega para cobrir um caso como esse.

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