Macunaíma Ópera Tupi: o melhor disco brasileiro da década!

                      |Por Uyatã Rayra|
                                                       
                                                                               


   
                                                                                   
Rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá rá :D :D

Já estou a me divertir previamente com o possível espanto que vocês, adeptos deste blog, devem estar aparentando ao ler tamanha pretensão logo no título. Sei que 2010 ainda nem acabou, mas fiquei receoso de dar oportunidade a Rolling Stones de fazer tal afirmação antes de mim – embora não creia de forma alguma que isso venha acontecer de fato...   Todos que se sentirem feridos por essa declaração me perdoem, mas estou plenamente convicto, neste exato momento, quanto à veracidade do título. Não sou impermeável: caso alguns de vocês queiram me convencer do contrário terão até o dia 31 de dezembro para me passar o link do álbum brasileiro que vocês julgam ser o melhor da década, mesmo assim, acho que será muito difícil que eu volte atrás.

Macunaíma Ópera Tupi (2008) é a obra-prima de Iara Rennó. Sim, e daí??? Quem é essa tal de Iara Rennó???





Se vocês me fizessem essa mesma pergunta há dois anos eu não saberia responder!!!!!!! Foi justamente ao escutar o cd Estudando a Bossa (2008) que me veio a revelação. Ao ler a ficha técnica do derradeiro disco de Tom Zé chamou minha atenção o nome de Anelis Assumpção estar presente em uma das faixas, especialmente pelo sobrenome me remeter a Itamar Assumpção - um dos mais ilustres artistas da semi-oculta Vanguarda Paulista. Fiquei inquieto e fui buscar saber quem era a tal moça, logo descobri que ela era filha do dito cujo!! Daí em diante, procurei saber das produções dela, e se realmente tinha herdado alguma “lombra” do seu pai. Felizmente havia!!  Lambuzei meus ouvidos com mel, apreciando os dois álbuns da Dona Zica – Composição(2003) e Filme Brasileiro(2005) – que era a banda que Anelis fazia parte, enquanto percussionista e uma das cantoras. Outras duas meninas também se destacavam na banda, a saber: Andréia Dias e Iara Rennó. Quis saber da colé delas duas, e foi aí que dei de cara com o Macunaíma Ópera Tupi...

                                                Dona Zica

Iara Rennó é polivalente: cantora, compositora, instrumentista, arranjadora, produtora musical, dançarina, atriz e letróloga, além de filha de Alzira Espíndola – outra pérola da Vanguarda Paulista. Quanto ao último ponto, penso que se Lammarck estivesse vivo, se orgulharia em ver a sua teoria dos caracteres adquiridos sendo corporificada...
 
Iara é sim uma sereia, daquelas que entorpecem até os marujos mais piratas. Mas ela por si só não foi e nem é suficiente para fazer do seu disco o melhor da década!!!. Para que ela concebesse tal disco, teve que ser precedida por Mário de Andrade – autor do livro Macunaíma (1928) – e se não fosse por ele, com certeza eu não estaria aqui falando dela. O disco tem como mote principal a estória do “anti-herói”, e cada verso do álbum foi extraído do livro com certa fidelidade. Refletindo a diversidade multicultural presente no livro, ela pensou acertadamente em conclamar os mais díspares gênios da música brasileira para a construção do disco, e cada qual contribuiu proficuamente de acordo com as suas peculiaridades o que, a meu ver, auxiliou, também, no sucesso do disco. Numa lista incontável escolhi, arbitrariamente, ressaltar alguns deles: Tom Zé, Arrigo Barnabé, Kassin, Siba, Bocato, Buguinha Dub.


Algo que me comove também é a imprevisibilidade do álbum: numa faixa fica explícito elementos de música erudita, noutra vem a mente sinais de funk* carioca . Iara conseguiu esboçar o Brasil respeitando a realeza das nossas etnias, e para conseguir tal proeza não precisou esquartejar nossas raízes e vomitá-las aos nossos ouvidos, ao contrário apresentou-nos como nós somos: tenazmente intrincados miscigenadamente. Tornou-nos cosmopolitas!! O Macunaíma Ópera Tupi é um ritual sincrético daqueles bem mágicos mesmo. É violino, tambor, eletrônico, metais, psicodelia ... É moderno-antigo-atual-anacrônico. É cantiga de ninar, grito de acordar, cordel, ciranda, côco, e todo o pomar...


Nem sei se toda essa descrição fajuta seja gabarito para eleger o disco ao que ele já é. Se tais aspectos que apontei no disco da Iara fossem, de fato, decisivos, transbordaríamos de melhores discos da década - a maioria dos bons artistas brasileiros já segue uma cartilha semelhante. Macunaíma Ópera Tupi, por si só, consegue se erguer ao altar. Categorizá-lo é limitá-lo. Insisti nessa minha cavalice, não por almejar que vocês devam ter a mesma impressão que eu, apenas assumo uma postura de propagador. Fiquei agoniado em possuir jóia tão brilhante, e não exibir no pescoço para ofuscar os seus olhos.  

Já estou overdoseado, agora passo a seringa. Não tenham medo em se picar** ...

Lá vai o link da década:

http://rapidshare.com/files/147582462/UQT2008_Iara_Renno_-_Macunaima_Opera_Tupi.rar

Outros álbuns citados:

Dona Zica – Composição (2003): 

http://rapidshare.com/files/181788604/UQT2002_Dona_Zica_-_Composicao.rar

Dona Zica -  Filme Brasileiro (2005):
http://www.4shared.com/file/33098027/8a6b22b4/2005__filme_brasileiro.html




 * Na verdade, o ritmo da faixa é um ragga, o funk veio-me a mente quando da união com a letra.
 **Não tenho AIDS.

5 comentários:

28 de abril de 2010 21:08 Allan disse...

Nem mesmo se portasse HIV, deixaria de inaugurar a vida com este arame farpado de poder!
Belíssima recomendação, ouvidos de mel.

28 de abril de 2010 21:50 Lorena disse...

iêa, Uyatã! texto muito bom.
e digo: bote fé nelas aí. é de onde vem o "escute, essa canção não é de ninar, é de viver, é de amar\ não deixe pra mais tarde, que escurece".
ótima lembrança de quando cuspi o fel, ouvi o canto e fui buscar o mel no mato de caiporas...

29 de abril de 2010 08:28 M. Correia disse...

Curiosa sintonia. DSL e eu pronunciamos o título deste texto há alguns dias, na sala lá de casa. Eu disse ainda que estou de saco cheio desse alternativismo musical sem criatividade que empestiou as cenas do rio de janeiro a salvador. Para esta década que começa, estou com a neo-vanguarda paulista e não abro. Vamos ver o que vem.

7 de maio de 2010 05:57 DSL disse...

Uyatã, sábio Uyatã. Sou seu eterno devedor pela indicação da Ópera Tupi. Iara Rennó foi a última tentiva de me apresentar a vanguarda paulista e seus sucessores. Me arrebetou.

Reconheço o valor dos músicos contemporâneos, por isso gosto deles moderadamente. Mas Macunaíma é o tipo de obra que te envolve o ser inteiro, requer entrega. Não é apenas o maior álbum da década, mas lança as bases para a evolução da música brasileira para as décadas vindouras.

É bom poder ser impressionado novamente.

8 de julho de 2010 09:49 midialouca disse...

oi, Uyata, tou postando pois nao queria deixar de te passar esta informacao... se vc eh de salvador, tenta ia aa midialouca do Rio Vermelho amanha, sexta feira... iara renno lancou esse disco (macunaima) com a gente no ano passado, num pocket-show, foi sensacional. e amanha a gente tem mais uma coisa bacana com ela. Iara vai estar fazendo um pocket onde faz um pouco do macunaima, um pouco das coisas do DonaZica, coisas q foram gravadas por Ney Matogrosso, Elza Soares, e tb mostra algo do que estah pra aparecer como o seu segundo disco: Oriki, com textos dos Orikis de Riserio, dela, etc... Muito bom, aguarde! E acho que no clima das coisas que fazemos na midialouca, nada melhor do que aparecer, trocar ideias com quem ta mostrando o trabalho, dar este feedback pra o artista, etc. Ela eh otima e vai ficar feliz de trocar uma ideia com vc. Ah, e concordo com suas observacoes sobre o disco... Valeu, apareca! mais informacoes em www.midialouca.com.br

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