Um mundo livre de drogas*

|por Marco Macedo§|

Imagine um mundo livre de drogas. Nada de maconha nas festinhas universitárias, nem lanças-perfumes nas micaretas. Os colonos andinos não mais mascariam folhas de coca (encontrariam outra maneira de suportar a altitude), a cocaína não seria mais a curtição dos ricos, tampouco o crack a tentadora perdição dos pobres. As raves não teriam mais ecstasys ou anfetaminas. LSD seria apenas a abreviação da música Lucy in the Sky with Diamonds e heroína tão somente o feminino de herói. Ah, já ia esquecendo, os membros do Santo Daime também não beberiam o chá ayahuasca e os xamanistas não fumariam a Sálvia, nem fariam uso do Peyote (afinal, a que servem essas “seitas” se as religiões cristãs ocidentais são tão mais “verdadeiras”?) . As crianças de rua também não cheirariam mais cola de sapateiro: suportariam a realidade em que vivem sem recurso a essa “válvula de escape”.

Mesmo que para alguns esta seja uma operação bastante simples, creio que muitos outros terão dificuldades em imaginar um mundo tal. Não há registros de que uma sociedade sem uso de drogas tenha existido para nos servir de espelho. O que significa que há mais de dez mil anos os agrupamentos humanos tem feito uso de substâncias para alterar a consciência, alegando encontrar nas drogas uma fonte de alívio da dor, de contato com o místico ou simplesmente de prazer. É isso, repito, o que buscam, com ou sem razão, crianças de rua, xamanistas, ayahuasqueiros, pobres e ricos, colonos andinos, foliões e universitários[1], entre tantos outros, no uso de seus respectivos produtos: aliviar a dor, contactar o transcendental e experimentar boas sensações. É mesmo difícil imaginar que chegaremos a um tipo de sociedade no qual as pessoas se sintam tão completas, felizes e realizadas ao longo de sua vida que não queiram ou precisem utilizar, em momento algum, qualquer produto para atingir um desses objetivos.

No entanto, foi a esse mundo que se comprometeram os vários países que assinaram a “Convenção Única sobre drogas” da Organização das Nações Unidas em 1969. Declarando “guerra às drogas”, os czares da proibição transformaram o que era até então uma questão de saúde pública (ligada aos eventuais abusos de substâncias) em problema de polícia. Ao mesmo tempo, prometeram um mundo livre desse “mal” em até quarenta anos. Ou, pelo menos, de parte do “mal”. Afinal, após a revogação da Lei Seca provocada pela forte reação do público, percebeu-se que os usuários de drogas também possuíam poder de organização e mobilização política. Assim, revelou-se perigoso lutar contra todas as substâncias: melhor privilegiar a guerra contra as drogas do “Sul” (maconha, coca, papoula), controlando e explorando a produção das do “Norte” (álcool e tabaco).

Continue então o exercício. Imagine um mundo livre de drogas. “Ainda restariam as lícitas”, diriam ao mesmo tempo os mais conformados e os mais repressores. Realmente, faz sentido pensar que, inexistindo as demais substâncias, as pessoas se contentariam em buscar um prazer ou aliviar certas dores (sobretudo as da alma) com álcool e tabaco. Faz sentido pensar também que isso acarretaria um provável aumento no consumo dessas drogas, na quantidade de usos abusivos, nos danos à saúde dos usuários e nos custos para o sistema de saúde (que já são mais elevados que o de algumas substâncais ilícitas, como a maconha, inexplicavelmente classificada pela ONU no mesmo “rol” que a heroína). Então não seria espantoso se novas vozes se levantassem pela proibição do álcool e do tabaco.
Em nome de um mundo ainda mais livre de drogas. Sem pessoas bebendo nos bares, com o fundo do carro aberto e Silvano Salles vol. 8 no volume oitenta. Sem alcóolatras mendigando nas ruas. Sem fumantes no ponto de ônibus e sem guimbas de cigarro nos trilhos dos trens. Um mundo enfim belo e feliz, para muitos. E um pesadelo para aqueles que não querem, não podem ou não conseguem ter prazer, alcançar o transcendente ou amenizar a dor sem o auxílio de um elemento externo.

“Ei, você está esquecendo os medicamentos”, apontam os mais espertos. De fato, com o intuito central de reduzir a dor e o mal-estar, os medicamentos também são substâncias psicoativas e ainda poderiam ser utilizados para finalidades recreativas (como já o são atualmente), causando novos casos de abuso e de dependência ao produto.

Imagine, portanto, um mundo completamente sem drogas, onde nem mesmo a cafeína existiria (pobres acadêmicos em prazo final para entrega das dissertações...). Todo produto que pudesse afetar a consciência e, em consequência, representasse um risco de qualquer uso abusivo e de qualquer dano à saúde estaria automaticamente ausente deste planeta.

Um mundo livre de toda e qualquer substância que poderia ser considerada uma droga. Difícil de imaginar? Mais difícil ainda responder à questão: seria este um mundo melhor? E praticamente impossível seria convencer a todos de que é para este mundo que devemos caminhar. Pois nem os bilhões de dólares gastos nesta “guerra”, nem a ameaça de penas severas (incluindo a prisão perpétua e a pena de morte), nem as violentas práticas policiais, nem os riscos à saúde dos usuários (muitas vezes desconhecidos ou mistificados) foram capazes sequer de reduzir o consumo de drogas no mundo nos últimos quarenta anos. Ao contrário, o número de usuário de drogas só faz crescer, atingindo a marca de 3% da população mundial em 2004, segundo dados da própria Organização das Nações Unidas[2] (talvez em obediência ao primeiro comando da vida neoliberal : “consumir e gozar a qualquer preço!”).

O que nos leva à conclusão de que, se as pessoas não querem, não podem ou não conseguem deixar de consumir, um mundo livre de drogas, por mais desejável que venha a parecer, só pode existir como um mundo de imaginação. Enquanto persistimos na busca por esse mundo imaginário, a desinformação circula, não há qualquer controle da produção, as taxas de encarceramento explodem, as mortes no combate ao tráfico se acumulam (superando o número de mortos por danos decorrentes do uso) e as drogas se tornam cada vez mais um verdadeiro problema que esse mundo real precisa encontrar meios de resolver.

Recentemente, movimentos anti-proibicionistas, a exemplo da Marcha da Maconha tem proposto uma mudança nosso objeto de imaginação. Reconhecendo que a humanidade ao longo de sua história instituiu e controlou o uso de drogas como parte importante de sua existência, eles propõem que imaginemos um mundo em que as drogas sejam vistas como os produtos que são. Sem mistificação. Sem diabolização. Sem desinformação.

Para chegar a esse mundo, é possível imaginar alguns atalhos: controle estatal da produção (a exemplo do que é feito com o álcool e o cigarro); prevenção do consumo, com informação transparente e séria sobre os efeitos dos produtos, seus prováveis danos e os riscos de dependência; educação para a autonomia (a decisão sobre o uso ou a abstenção pertence necessariamente ao sujeito) e redução de danos como paradigma de atuação junto aos usuários.

Todavia, não será uma tarefa fácil convencer as pessoas educadas sob o império do temor ao produto e do preconceito para com o usuário a abandonar a larga estrada da criminalização e se aventurar por esses atalhos, ainda tão estreitos e espinhosos (a acusação de “apologia ao crime” sendo um dos muitos riscos). Talvez ajude lembrar que três entre cada cem pessoas que conhecemos, um entre cada dois universitários, fazem ou já fizeram uso de drogas. São nossos conhecidos, nossos amigos, nossos filhos, somos nós. Se não queremos que essas pessoas corram mais riscos do que aqueles que a própria consumação de uma substância psicoativa acarreta, creio que é hora de produzirmos novas imaginações.

[1] Segundo pesquisa recente da Secretaria Nacional de Estudos sobre Drogas, 49% dos universitários brasileiros faz ou já fez uso de alguma substância psicoativa ilícita.
[2] ZIMMERMAN, Patrícia. Consumo de drogas atinge 3%  da população mundial. Folha.com. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u96130.shtml. Acessado em: 20/04/2011.

* Aos amigos João Alexandrino Neto e Celso Sant’Anna Júnior, meus sinceros agradecimentos pelas leituras e sugestões “pendant la pause”.
§ Marco Macedo é mestrando em Criminologia pela Universidade de Louvain (Bélgica), pesquisador-colaborador do Grupo de Pesquisa em Criminologia do curso de Direito da UEFS, desenvolve trabalhos sobre o Controle sócio-penal das substâncias psicoativas e se irritou recentemente ao ser questionado sobre o seu envolvimento (evidentemente acadêmico) com o mundo das drogas.

7 comentários:

22 de abril de 2011 09:18 Tamar disse...

Gostei muito da maneira como o tema foi abordado neste texto e como educadora me chamou, em especial, a utilização do termo "educação para a autonomia". É fato que proibir de nada adianta. O ideal [ e ai levamos em conta a distancia entre o ideal e o real] seria formar cidadãos que pudessem decidir por si mesmos que caminho seguir. E este, talvez, seja o maior desafio.

22 de abril de 2011 09:32 Aníssima Duarte* disse...

Vejo mais uma vez um jogo de interesse elitista e econômico entre os próprios "salvadores do mundo" que hasteiam a hipócrita e diria ainda lúdica bandeira do "por um mundo melhor, sem drogas".
Também como educadora concordo demais com Tamar, muito embora saiba do desafio primeiro que é fazer brotar professores que saibam ser autônomos- não reprodutores do que já está aí no sistema- e assim, brotem o pensar crítico e autônomo dos estudantes, crianças, pois que são o futuro...Portanto, ainda ficaremos uns longos anos apenas em debate. Mas sinto uma fresta de esperança quando leio textos assim...Parabéns!
CAMINHEMOS...

22 de abril de 2011 12:15 Lorena disse...

Gostei muito do texto! A "viagem imaginativa" é uma proposta necessária. De fato, é hora de reproduzirmos a imaginação e o terror sentido\manipulado pelo pensamento único, hegemônico. É hora de criarmos, assumindo os riscos que essa tarefa nos propõe.
Fico bastante feliz pelos comentários acima também. Jovens, educadoras e estudantes, que compartilham o que pensam e suas angústias inclusive por verem o quanto esse pensamento único de guerra às drogas reforça a massa de prisão com que são construídas as paredes de muitas salas de aula hoje, notadamente, no Brasil.
E, por último, lamento pelas pessoas que continuam lhe etiquetando e demonizando o envolvimento com as drogas - seja ele acadêmico ou não - pelo medo, por estupidez e por não desconfiar da "segurança" e "informação" que gentilmente nossos formadores de opinião nos concedem.
Como diz Ana, caminhemos. Que esse texto, a pesquisa e os debates que ela acarretar permita mudar o curso dessa história.

22 de abril de 2011 12:17 Lorena disse...

* Do comentário acima: é hora de deixarmos de lado a reprodução da imaginação e do terror do pensamento único para criarmos uma outra imaginação.

22 de abril de 2011 21:33 Charles disse...

O texto é muito bom, realmente!! Mas a argumentação se esquece que o mundo é muito mais complexo que a Universidade!!

Usar ou não usar as drogas é muito mais que uma opção!! É muito mais que o "direito a uma válvula de escape"! O álcool já vicia e é um problema seríssimo em todas as sociedades!! O alcóolotra é um doente, e quem convive ou conviveu com um sabe bem como o vício pode comprometer a vida em família/em sociedade!!

Discutir a liberação do uso de outras drogas com tanto ou maior poder de vício, é uma questão importante, que tem que ir além da realidade que vivemos em uma universidade. Aqui se fala em "uma nova visão, além do que nos passa a mídia", mas na verdade todos os comentários aqui se baseiam em um mundo perfeito, onde o uso de entorpecentes é apenas uma questão de escolha! Se baseia na vida dentro da Universidade! Mas o mundo é muito, mas muito mais amplo que a Universidade!!

A LEGALIZAÇÃO das drogas é algo muito além da LIBERAÇÃO do uso de drogas! Ter campanhas de concientização dos perigos do vício e dos impactos do uso de determinadas substância é, talvez, o aspecto mais importante da LEGALIZAÇÃO, e esse aspecto é renegado nesse post e nos comentários! Repito: usar drogas é muito mais que uma questão de ESCOLHA, é uma questão SOCIAL, que tem impactos profundos na vida de muita gente!! Temos que olhar para além de nosso convívio, temos que viver a realidade de pessoas que conhecem bem o que traz o vício (seja qual seja o vício). É muito romantismo passar apenas a visão da "válvula de escape", é preciso pensar nas consequências desse "escape" momentâneo ou permanente!! Pensar no coletivo é pensar nos impactos que o uso de entorpecentes podem ter na vida do OUTRO, e não na minha! Quem aqui conhece a VIDA DO OUTRO??

Saudações libertárias, e anti-drogas!! :-)

Charles

25 de abril de 2011 08:30 chocalhodecascavel disse...

Bom texto, apesar de algumas limitações previsíveis para um texto curto. Realmente, tratar dessa temática requer fôlego e visão holistica, pois temos que transcender nosso circulo sócio-cultural e adentrar o obscuro mundo da multiculturalidade. Um bom exemplo são as possibilidades de uso medicinal que algumas dessas substancias podem ter. Aqui, ser contra ou a favor se torna ainda mais complicado, pois temos que avaliar uma serie múltipla de fatores para não cairmos em um simples olhar etnocentrico. Enfim, o tema da pano pra manga, sigamos nas discussões...

Não compre! Plante!

25 de abril de 2011 13:05 Raphael Monteiro disse...

Assisti um documentário no canal de tv paga History Channel, que falou sobre as farmácias de THC na Califórnia. A tecnologia do uso da planta multiplicou os instrumentos, lá quem fuma é quem gosta de fumaça. Misturada a outras substancias pode ser comestivel. Também mostrou a relação com o dinheiro, pois se movimenta bastante nas 700 farmácias -drograrias .

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