Fogo ainda é pouco!

|por Jhonatas Monteiro*|
2,15 já é roubo
2,37 é fogo no buzú
                Anônimo

Diante da recente queima de um ônibus do sistema de transporte coletivo de Feira de Santana, no campus da UEFS, rapidamente se espalhou por várias partes da cidade, à boca pequena, um espírito geral: “até que enfim!”. É claro, a maior parte da mídia local se esmerou em cumprir o seu honroso papel, denunciando o ato enquanto “vandalismo”, alardeando os “prejuízos” do empresariado e apontando possíveis “culpados”. Como costumeiro, tanto em uma revolução social quanto no mais simples protesto, a opinião dos ditos “formadores de opinião” nunca esteve tão desencontrada da sensibilidade popular. Afinal, se entre o povo feirense pode haver algum questionamento acerca da forma que assumiu o ato de contestação da situação do transporte, por outro lado, não parece haver qualquer dúvida quanto ao seu sentido e é justamente sobre este último que a cobertura midiática não deu um pio: o que levou pessoas a queimarem um ônibus do transporte coletivo de sua cidade? O que está acontecendo com o transporte coletivo feirense ao ponto de indignar? O transporte atende a maioria da população? O preço da passagem é justo?

Convenhamos, o tratamento da mídia dado à queima do ônibus exige uma afirmação de posição: cá de onde vejo a situação, se me permitem o empréstimo do termo, “vândalo” é o próprio sistema de transporte coletivo! Linhas insuficientes, percursos que não contemplam eficientemente inúmeros bairros, ônibus velhos, atraso nos horários, falta de integração entre as diferentes modalidades de transporte, precariedade no atendimento dentro do ônibus, desrespeito flagrante ao direito de meia passagem e de outros grupos (como os idosos), um preço de passagem que deixou de ser apenas extorsão e passou a ser absurdo, dentre outros problemas do dito Sistema Integrado de Transporte (SIT) que se somam no cotidiano calvário a que é submetida a maior parte da população feirense. Enquanto isso, o prefeito Tarcízio Pimenta deixou de pegar ônibus desde o último processo eleitoral, oportunidade em que apareceu como usuário elogioso do SIT, e tem mostrado a mesma velocidade de seus antecessores em sancionar aumentos às vésperas de algum feriado ou final de semana (evidentemente, buscando desmobilizar qualquer resistência); a Câmara de Vereadores desconhece qualquer tipo de problema no transporte coletivo da cidade e continua empenhada em discutir convenientemente o sexo dos anjos; já o Conselho Municipal de Transportes manteve a coerência habitual da troca de favores com o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Feira de Santana (SINCOL) e demonstrou sua fidelidade canina ao aprovar o aumento da passagem para R$ 2,37. O que acham esses senhores? Que a paciência popular não tem limite? Que o pote de humilhação e exploração se encheria infinitamente? Sem jamais chegar a gota d’água? Aliás, todas as matérias jornalísticas que denunciaram pichações com a frase “2,37 é fogo no buzú” como a prova que a queima foi “planejada” esqueceram que a frase anterior é “2,15 já é roubo”, ou seja, o mais novo aumento abusivo foi apenas o pavio de uma situação há muito tempo explosiva.

Portanto, considerando o estado de coisas, fogo ainda é pouco: existe legitimidade, mais que de sobra, para pôr a própria lógica geral do SIT abaixo. O nosso sistema de transporte coletivo, que definitivamente não merece o nome de público, é a própria concretização material da visão das elites econômicas e políticas de Feira de Santana: o SIT funciona mal para a maioria, mas “muito bem, obrigado” se o ângulo for os interesses dessas elites. As linhas e horários dos ônibus funcionam – é bem verdade, às custas de superlotação e atrasos – para levar e trazer de seus locais de emprego as trabalhadoras e os trabalhadores da cidade. Para essas elites, esse sistema de transporte “bovino” é suficiente, já que se não estiver trabalhando ou comprando a maioria da população deve ficar confinada em seus bairros. Por isso, não deve ser visto como “acidental” que o transporte seja ruim durante a semana, mas pior ainda nos finais de semana. O acesso à arte, ao lazer, à educação, à participação política e outros direitos, que têm como base concreta o direito de circulação da maioria da população pela cidade, não constam na “conta” das elites locais. O transporte coletivo feirense serve, mal e porcamente, aos fins estreitamente pragmáticos da dinâmica econômica da cidade, sendo a materialização diária da negação do usufruto da vivência urbana. Dessa maneira, não basta “remendar” o SIT, é necessário entender e combater a lógica antidemocrática materializada nele. Não à toa, as tentativas de abafar qualquer debate público sobre a questão. Assim, o crescimento da mobilização estudantil para barrar o aumento é o passo concreto para colocar em pauta o anseio popular por um sistema de transporte verdadeiramente público, mas também a melhor forma de afirmar ao SINCOL, prefeito e cúmplices que um ônibus queimado é o menor dos seus problemas.

Jhonatas Monteiro é Mestre em História, pela UEFS, e professor da Rede Pública Estadual.

4 comentários:

3 de abril de 2011 17:45 Lorena disse...

"Materialização diária da negação do usufruto da vivência urbana": essa é somente uma das inúmeras contradições que, há muito, que precisa ser posta em pauta pelos segmentos populares da cidade. Gostei muito do pronunciamento. Banditismo porquê? Ora, vamos colocar isso em debate.

4 de abril de 2011 08:51 David disse...

Muito bacana suas considerações, meu caro... Em tempos onde o normal é o silêncio ou a criminalização da ação, você ousa ser uma voz distoante... Que circule o texto!!

4 de abril de 2011 10:44 Uns Dizeres disse...

Sou de Feira de Santana, mas atualmente moro no Rio de Janeiro e chega a ser escandaloso a passagem custar quase o mesmo preço do transporte público aqui, que custa R$2,40. Ônibus atrasado ou em más condições são motivos para linchar motorista ou cobradores. O corporativismo vigente no meio empresarial e das comunicações feirense é vexatório.

5 de abril de 2011 12:31 Deusdete disse...

Consenso permanente entre toda a população feirense e demais localidades. então, vamos as ruas colocar nossas indignações, vamos as ruas para lutar, vamos a rua observar o comportamento desse sistema opressor e tomar pra si essa causa!!!é Um completo descaso com as causas sociais !!!Já basta! vamos as ruas meu povoo !!!

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