Clube de Patifes: unindo as águas do Mississipi com as águas do Velho Chico

|Por Karine Braga*|
Foto: Guilherme Andriani
Quando novas bandas vão se formando, um desafio a elas se impõe: apresentar um trabalho autoral, correndo maiores riscos de rejeição ou apostar nos chamados “covers”, garantia de maior receptividade, cuja tendência, entretanto, é desaparecer tão logo o público se enfastie? Sendo difícil apostar numa ou noutra via, muitas vezes, os músicos optam por uma espécie de trabalho mesclado, em que um ou outro trabalho autoral vem à tona. 



Pois medo de rejeição, definitivamente, não é marca da trajetória do Clube de Patifes. Há 12 anos, a banda tem apostado no blues-rock, justamente em Feira de Santana, esta cidade onde se come “pirão com carne assada de volta do curral”, como disse o poeta Eurico Alves. Nascido entre estudantes da UEFS, o grupo aceitou (e superou) o desafio de solidificar um trabalho autoral e contribuiu para desfazer a concepção purista de que só se canta blues em inglês.

A cada vez que sobem ao palco, Pablício Pablues (vocal e gaita), Paulo de Tarso (bateria), Jo Capone (baixo) e Stephen Ulrich (guitarra) conquistam novos fãs. Também é certo que haja um público fiel, a cantarolar as letras eivadas de certa influência bukowskiana, nas quais se destacam a bebida (e os porres) e as conquistas amoroso-sexuais (e, algumas vezes, as decepções delas decorrentes) de quem vive na noite. Exemplos são as canções “Barfly”, “Fele-me” e “Noite em claro”, ícones do primeiro álbum, “Do palco ao balcão” (2001), considerado, pela crítica especializada, um dos melhores discos de blues do Brasil. Foram vendidas 3 mil cópias, um número significativo se levarmos em conta dois fatores: a disponibilidade para download na Internet e o fato de ser uma produção independente, sem o selo das grandes gravadoras.

O segundo álbum demorou a sair. Percalços como mudanças de formação no grupo contribuíram para a delonga. Mas valeu a pena esperar por “Com um pouco mais de alma” (2009), que traz 11 músicas. Tem a participação do cordelista Bule-Bule, na vinheta “Bule Bule Trazendo a verdade”, que introduz “Mulher de repente” e exemplifica a proposta de “unir as águas do Mississipi com as águas do São Francisco”, ou seja, valorizar, a um só tempo, tanto a batida do blues e do rock’n’roll como a herança nordestina. Tantas músicas se destacam nesse sólido trabalho que destacar uma ou outra seria injustiça de minha parte.

Muitos momentos significativos marcam os 12 anos do Clube. O primeiro show, numa festa do curso de Administração, em 11 de novembro de 1998. A estréia para a cidade, no CUCA, em 1999. Shows na UEFS (nas antigas Calouradas) e nos bares da cidade, como Jeca Total, Bavária e Boca do Caranguejo (os dois últimos, já extintos). Mais tarde, apresentações em Salvador, no antológico bar Café Callypso, no Rio Vermelho.

Nos últimos anos, os patifes têm ultrapassado as fronteiras da Bahia. Participaram de festivais importantes, como o Panela Rock, em Fortaleza (CE) e o Usina da Cultura, em Mossoró (RN). Sergipe e Minas Gerais também fizeram parte dessa turnê. Com “olhos abertos, mente aberta”, eles pretendem alargar ainda mais os horizontes em 2011.
Foto: Guilherme Andriani
Haveria surpresa nisso? Penso que não. Num breve encontro com Joilson Santos, o Jo Capone, de pouco mais de quarenta minutos, fica fácil perceber que, além de genuinamente talentosos, esses rapazes são daqueles que têm, cravada nos olhos, a sede do infinito. Audaciosos, tornaram-se, nos últimos três anos, peças fundamentais no agito da cena rocker baiana, sobretudo do interior. Idealizaram a Alcatéia Produções que, integrada ao Capivara Coletivo e ao Feira Coletivo Cultural, é responsável pelo projeto “Noites baianas”. Concentrado em dois dias, o evento, realizado em Feira de Santana e Camaçari, contou com 10 atrações, tanto do interior como da capital. É a boa música alternativa se fortalecendo na Bahia.
*Karine Braga é mestranda pela UEFS em Literatura e Diversidade Cultural.

1 comentários:

15 de dezembro de 2010 08:25 Karine disse...

Os créditos das fotos vão para Guilherme Andriani.

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